O mecanismo criado para conter a pulverização partidária, até então utilizado principalmente como estratégia de sobrevivência à cláusula de barreira por partidos pequenos, passou a ser usado por legendas maiores com outro intuito: ampliar seu poder político e eleitoral. O movimento, entretanto, pode gerar desgastes importantes entre lideranças regionais das legendas, resultado em perda de poder e não aumento, avaliam especialistas.
O movimento mais recente de junção de siglas grandes em uma federação envolveu o União Brasil e Progressistas. Já há sinais claros de desavenças entre líderes dos dois partidos em alguns Estados. Os embates podem levar até mesmo à saída de alguns desses líderes.
Diferentemente dos partidos menores que recorreram às federações em 2022 para se manter ativos, essas duas siglas, que não enfrentam risco de exclusão, optaram pela aliança com fins exclusivamente eleitorais. A proposta inicial das federações, de facilitar a formação de maiorias e a articulação, não tem sido, na prática, o foco das legendas envolvidas.
Criadas pela reforma eleitoral de 2021, as federações partidárias permitem que dois ou mais partidos atuem como uma só legenda, em um vínculo de prazo indeterminado, por no mínimo quatro anos, a partir da data de sua formação.
Até então, a federação havia sido utilizada somente como ferramenta de enfrentamento à cláusula de barreira. Para 2026, as siglas deverão eleger no mínimo 13 deputados, distribuídos em pelo menos um terço dos Estados, ou seja 9 unidades federativas, ou obter 2,5% dos votos válidos para que tenham direito ao Fundo Partidário e ao tempo de propaganda eleitoral.
Em 2022, o PT se uniu ao PCdoB e ao Partido Verde, enquanto o PSOL se juntou à Rede Sustentabilidade e o Cidadania se uniu ao PSDB. A próxima disputa eleitoral deverá inaugurar uma nova utilização do mecanismo, segundo o especialista em direito eleitoral Alexandre Rollo.
“Acredito que essa federação esteja sendo criada para terem uma bancada maior, principalmente na Câmara dos Deputados e no Senado, e com isso terem maior peso político nas negociações de ministérios e no Congresso Nacional”, sugere Alexandre.
Apesar da estratégia, na avaliação do cientista político Marco Teixeira, as questões regionais deverão se intensificar diante da disputa de poder local, principalmente em lugares onde há histórico de enfrentamento direto entre as siglas.
“Essa união vai mostrar se ela veio para valer mesmo na escala regional. Onde cada partido está, digamos assim, num lado da polarização na disputa local”, avaliou. “O fato de você ter criado uma federação não significa que os parlamentares mudaram de posição”, destacou.
Nos bastidores, parlamentares já ameaçam deixar seus partidos como uma reação à federação. Outros integrantes das siglas, no entanto, avaliam que o maior problema – o desejo do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP) de comandar a federação – já foi solucionado com a definição de um rodízio entre os presidentes Antonio Rueda (União Brasil) e Ciro Nogueira (PP).
Para eles, a força que a federação ganha, visando as eleições de 2026, supera as divergências entre os dois partidos.
Em entrevista ao Estadão/Broadcast, o presidente do PT, Humberto Costa, enfatizou as diferenças entre as duas siglas no Nordeste, inclusive na relação com o governo Lula.
“O PP tem uma força no Nordeste e com muita proximidade com o Lula. Já o União sempre foi oposição muito mais forte. Quem segura mais a proximidade com o governo é Davi Alcolumbre (presidente do Senado e integrante do União Brasil). Acho que, com a federação, ficou um pouco mais distante. Acredito que, se o Lula estiver com candidatura forte (em 2026), esses partidos vão liberar participação nos Estados”, opinou.
O cientista político e professor da FGV Jairo Nicolau ressalta que a política “possui um componente estadual particular no Brasil”, que se organiza em torno da liderança dos caciques regionais. O problema, para Nicolau, é que as siglas unem adversários históricos.
“Quando houve a fusão do PSL com DEM, que virou União, já tivemos uma primeira parte de um conflito. Se você olhar retrospectivamente, três partidos viraram uma federação. Ou seja, o PSL juntou com o DEM, virou União, que se juntou com o PP”.