O Recôncavo Baiano será cenário do primeiro longa-metragem de ficção da cineasta cachoeirana Everlane Moraes. Intitulado O Segredo de Sikán, o filme tem início das filmagens previsto para outubro de 2025, em Cachoeira e São Félix — cidades irmãs separadas pelo rio Paraguaçu, que assume papel central na narrativa.
Ambientado em um universo de realismo fantástico, o longa resgata e reinventa o mito africano de Sikán para discutir temas como protagonismo feminino, disputas de poder e preservação cultural. Um dos nomes cotados para o elenco é o da premiada atriz Grace Passô, referência no teatro e cinema brasileiro.
Na história, Sikán, princesa de um antigo reino da Nigéria, é escolhida por uma divindade para guardar um segredo capaz de gerar guerra ou paz. No mito original, ela é injustamente acusada de trair a confiança divina e acaba sendo executada. Na versão de Everlane, no entanto, Sikán recusa a condenação e se joga no rio Odan, onde se transforma em um peixe mágico. A criatura atravessa os séculos e os oceanos até alcançar o rio Paraguaçu, na Bahia, em busca de justiça e da volta do sol para seu povo.
“Quis romper com a tradição de mitos narrados sob uma perspectiva masculina. Minha Sikán não aceita o destino imposto — ela o transforma”, afirma a diretora.
A inspiração para o projeto surgiu durante o período em que Everlane estudou em Cuba, na Escuela Internacional de Cine y TV (EICTV), entre 2015 e 2018. Foi lá que ela conheceu o trabalho da artista visual Belkis Ayón, que reinterpretou o mito de Sikán em suas gravuras. A artista cubana será homenageada no filme por meio da personagem Sara.
Com roteiro premiado em festivais e laboratórios nacionais e internacionais, O Segredo de Sikán já conquistou reconhecimentos importantes, como o de Melhor Projeto em Desenvolvimento no BrasilCineMundi e no Hubert Bals Fund, na Holanda. Em 2023, a diretora visitou a Nigéria para aprofundar sua pesquisa e estabelecer parcerias com a indústria de Nollywood, a segunda maior do mundo em volume de produção.
A trama se passa em um mundo dividido simbolicamente entre Cachoeira, representada como uma cidade matriarcal privada do acesso ao rio, iluminada apenas por velas, e São Félix, governada por homens, que extrai das águas a luz que alimenta seu progresso.

Com um elenco formado exclusivamente por artistas negros, o filme pretende reunir nomes consagrados do cinema brasileiro e talentos locais. A produção é assinada pela Carapiá Filmes e Pattaki Produções, com distribuição da Embaúba Filmes — mesma empresa responsável por Marte Um, indicado brasileiro ao Oscar. O projeto também conta com o apoio da Odé Produções, recursos da ANCINE (Fundo Setorial do Audiovisual) e do edital estadual da Lei Paulo Gustavo.
Foto: vinícius Castro