Pouco mais de dois meses após seu último encontro, em uma cúpula no Rio de Janeiro, os líderes do Brics voltarão a se reunir, nesta segunda-feira (8), desta vez de forma virtual, para debater a atual conjuntura da política internacional, principalmente em meio à ameaça ao multilateralismo. A convocação deste novo encontro foi feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Auxiliares de Lula afirmam que, entre os assuntos a serem tratados, estarão o tarifaço promovido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a situação na Faixa de Gaza, a guerra entre Ucrânia e Rússia – que integra e o bloco e estará na reunião, a reforma da Organização Mundial do Comércio (OMC) e a conferência mundial sobre mudanças climáticas, COP30, que acontecerá no próximo mês de novembro, em Belém, no Pará.
Previsto para discursar na reunião, o texto de Lula foi preparado com cuidado, visando o fato de que a reunião acontecerá durante mais uma das sessões do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no Supremo Tribunal Federal (STF) por suposto envolvimento em um trama golpista para tentar evitar a posse do petista.
Trump, ávido defensor de Bolsonaro, já pontuou diversas vezes que só aceitará negociar o fim da sobretaxa de 50% sobre os produtos brasileiros com Lula caso o processo contra o ex-presidente seja arquivado, algo que o governo do petista já visou que não fará, rejeitando qualquer interferência da Casa Branca em assuntos internos.
A reunião está marcada para acontecer das 9h às 11h e será fechada. Cada um dos membros do Brics deve fazer um discurso. O Brasil está na presidência do bloco até dezembro deste ano.
Em pronunciamento do 7 de Setembro, Lula reforça soberania do Brasil e manda recado aos EUA: ‘Não seremos colônia de ninguém’
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) utilizou a véspera do Dia da Independência, neste último sábado (6), para fazer um firme pronunciamento em defesa da soberania nacional. Em rede nacional de rádio e televisão, Lula ressaltou que o Brasil não aceitará interferências externas, criticou políticos que, segundo ele, “traem a pátria” e reafirmou o compromisso do governo com a democracia, o meio ambiente e a proteção social.
“Não somos e não seremos novamente colônia de ninguém. Somos capazes de governar e de cuidar da nossa terra e da nossa gente, sem interferência de nenhum governo estrangeiro”, declarou o presidente.
A fala ocorre em meio às tensões comerciais com os Estados Unidos, liderados pelo presidente Donald Trump, que recentemente impôs tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros.
Relações com Estados Unidos
O impasse diplomático entre Brasília e Washington ganhou força após Trump relacionar as tarifas à postura do Brasil no Supremo Tribunal Federal (STF), em especial no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O líder norte-americano também mencionou a regulação das big techs como justificativa para endurecer as medidas contra o Brasil.
Na sexta-feira (5), Lula havia sinalizado acreditar em uma futura normalização nas relações entre os dois países, mas destacou que, até o momento, o governo brasileiro não conseguiu estabelecer um diálogo efetivo com a gestão Trump.
Críticas à oposição e recado à família Bolsonaro
O discurso também trouxe um duro recado interno. Sem citar nomes diretamente, Lula classificou como “traidores da pátria” os políticos que, segundo ele, estimulam ataques ao Brasil e à sua imagem internacional.
“É inadmissível o papel de alguns políticos brasileiros que estimulam os ataques ao Brasil. Foram eleitos para trabalhar pelo povo brasileiro, mas defendem apenas seus interesses pessoais. São traidores da pátria. A História não os perdoará”, disse Lula.
A declaração foi interpretada como uma mensagem direta à família Bolsonaro e aliados, críticos constantes do atual governo.
Defesa da democracia e dos Poderes
O presidente destacou que a independência brasileira está também na autonomia entre os Poderes. Reforçou ainda que o Executivo respeita integralmente a Constituição e não pode interferir nas decisões da Justiça.
“Isso significa que o presidente do Brasil não pode interferir nas decisões da justiça brasileira, ao contrário do que querem impor ao nosso País”, afirmou.
Regulação das redes digitais
Outro ponto de destaque foi a defesa da regulação das plataformas digitais. Lula alertou sobre os riscos do uso das redes sociais para fake news, discurso de ódio, crimes financeiros, exploração sexual de menores e incentivo ao racismo e à violência contra mulheres.
“Reconhecemos a importância das redes digitais. Elas oferecem informação, conhecimento, trabalho e diversão para milhões de brasileiros, mas não estão acima da lei”, disse.
Na última semana, o Senado Federal aprovou o chamado “ECA Digital”, projeto de lei que impõe restrições ao uso de redes por crianças e adolescentes, prevendo inclusive a suspensão de plataformas que descumprirem a legislação.
Avanços destacados pelo governo
No pronunciamento, Lula aproveitou para citar conquistas da atual gestão, entre elas:
- redução do desemprego;
- abertura de mais de 400 mercados internacionais para exportações brasileiras em menos de três anos;
- queda de 50% no desmatamento da Amazônia;
- preparação da COP30, a Conferência do Clima da ONU, que será realizada em Belém em novembro de 2025.
O presidente também defendeu a manutenção do Pix como sistema público e gratuito, destacando-o como símbolo de inclusão financeira.
União nacional no 7 de Setembro
Ao encerrar o discurso, Lula convocou os brasileiros a se unirem em defesa do país. “Este é o momento da união de todos em defesa do que pertence a todos: a nossa pátria brasileira e as cores da bandeira do nosso país”, afirmou.