Com 51 mortes registradas nos anos 1990 por intoxicação por metanol, a Bahia voltou a acender o alerta para a substância após dois casos suspeitos recentes em Feira de Santana e Salvador. Um homem de 56 anos chegou a falecer, mas análises descartaram a presença do composto tóxico, segundo a Secretaria da Saúde da Bahia (Sesab). Apesar disso, o episódio reacende a preocupação com um problema já enfrentado no passado.
O primeiro surto ocorreu em 1990, no município de Santo Amaro, no Recôncavo baiano, onde 16 pessoas perderam a vida e outras 20 precisaram de internação após consumir aguardente contaminada. As vítimas apresentaram sintomas graves, e diversos sobreviventes ficaram com sequelas permanentes, como perda de visão e audição. A tragédia mobilizou autoridades e revelou a gravidade do uso de substâncias químicas ilegais na produção de bebidas.
Sete anos depois um novo episódio agravou ainda mais o histórico do estado com o metanol. O proprietário de uma funerária em Serrinha, a 173km de Salvador, na Bahia, foi quem deu o alarde. Ele percebeu que tinha algo de estranho acontecendo quando, em apenas uma semana, em novembro de 1997, vendeu 11 caixões para famílias de pessoas que haviam morrido depois de ingerir a cachaça da marca Pé No Pote, de fabricação caseira. A Vigilância Sanitária foi chamada e, dias mais tarde, exames em laboratório com garrafas daquela marca comprovaram a presença de metanol na bebida.
Assim como as vítimas recentes no Estado de São Paulo, onde já houve cinco mortes em 22 casos suspeitos de contaminação com metanol, os moradores de Serrinha, começaram a passar mal pouco depois de consumir a bebida adulterada. Eles sentiram ânsia de vômito seguida de forte dor no estômago, além de cegueira. Na investigação da Vigilância Sanitária, mais de 1,3 mil litros da cachaça Pé No Pote foram recolhidos em bares e outros 700 litros no depósito da fábrica clandestina.
Em 1999, estourou uma nova contaminação com metanol na bebida, provocando a morte de 35 pessoas, entre elas uma gestante de cinco meses em dez cidades do Sudoeste do Estado, entre elas Nova Canaã, Dário Meira, Ibicuí, Poções e Itiruçu. Um laudo divulgado pelo Departamento de Polícia Técnica de Salvador atestou que as amostras do aguardente, recolhidas nos municípios onde ocorreram as mortes, continham de 2,85% a 24,84% de metanol. Investigações levaram à descoberta de uma destilaria clandestina em Iguaí, no sudoeste baiano, onde cachaça era produzida em tonéis reciclados que haviam armazenado metanol, intensificando a contaminação da bebida.
O uso do metanol, altamente tóxico e impróprio para consumo humano, se mostrou fatal nesses episódios. Ao contrário do etanol, ele não é processado pelo corpo e pode provocar danos neurológicos, cegueira e morte. As ocorrências da década de 1990 deixaram marcas profundas e servem como alerta permanente sobre os riscos da falsificação de bebidas alcoólicas.