O Bembé do Mercado, maior manifestação pública de candomblé de rua do mundo, movimenta a cidade de Santo Amaro, nesta quarta-feira (13), data que marca o ponto alto da celebração realizada há 137 anos no Recôncavo Baiano. A programação segue até domingo (17) com cortejos religiosos, toques de candomblé, apresentações culturais e homenagens à ancestralidade negra no Largo do Mercado, espaço tradicional da festa.
Realizado desde 1889, um ano após a abolição da escravidão, o Bembé do Mercado reúne terreiros, lideranças religiosas, moradores, pesquisadores e visitantes em torno de ritos ligados às religiões de matriz africana. A celebração acontece na mesma data da assinatura da Lei Áurea e também no Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo, mantendo tradições voltadas ao culto de divindades das águas, como Iemanjá e Oxum.
Origem da celebração
O Bembé do Mercado foi criado pelo babalorixá João de Obá como uma celebração da liberdade recém-conquistada pelos africanos escravizados. Segundo registros históricos e relatos preservados pela tradição oral, filhos e filhas de santo se reuniram na Ponte do Xaréu para marcar a data de forma pública, em um período em que os cultos afro-brasileiros dependiam de autorização das autoridades para acontecer.
Naquele contexto, Santo Amaro havia se consolidado como um importante núcleo açucareiro do Recôncavo Baiano, com economia sustentada pela escravidão. Mesmo após a abolição, a população negra continuou submetida à desigualdade social e econômica, além da repressão às manifestações religiosas de matriz africana.
Sem autorização oficial, integrantes da comunidade negra ocuparam as ruas da cidade em 13 de maio de 1889 para celebrar a liberdade. Desde então, o Bembé do Mercado se mantém como uma manifestação de fé, memória e resistência, reunindo música, dança, culto aos orixás e ocupação do espaço público em Santo Amaro.
Programação
Quarta-feira (13)
- 5h – Alvorada e hasteamento da bandeira;
- 5h – Lavagem do busto de João de Obá;
- 16h – Cerimônia civil de abertura oficial;
- 20h – Xirê de abertura em honra a Xangô.
Quinta-feira (14)
- 20h – Xirê.
Sexta-feira (15)
- 6h – Ebô para Oxalá.
Sábado (16)
- 20h – Xirê principal e chegada dos presentes de Oxum e Iemanjá.
Domingo (17)
- 14h – Saída para entrega dos presentes em direção à Praia de Itapema.
Patrimônio cultural
Reconhecido como Patrimônio Imaterial da Bahia pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac) desde 2012, o Bembé também recebeu o título de Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2019. A celebração reúne anualmente milhares de pessoas entre adeptos das religiões de matriz africana, moradores da região, turistas e pesquisadores.
Entre os principais momentos previstos para a edição deste ano estão os cortejos religiosos pelas ruas de Santo Amaro, os xirês e toques de candomblé realizados no Largo do Mercado, além da participação de terreiros do Recôncavo Baiano e apresentações culturais e musicais ao longo da programação.
O encerramento da celebração também mantém a tradição da entrega de presentes às divindades das águas, ritual que marca o fim das atividades do Bembé do Mercado. A programação ainda inclui homenagens à ancestralidade negra e atos ligados às tradições afro-brasileiras preservadas ao longo de mais de um século.
Celebração homenageada no Carnaval do Rio de Janeiro
Neste ano, o Bembé do Mercado foi homenageado pela escola de samba Beija-Flor de Nilópolis no Carnaval do Rio de Janeiro. A agremiação apresentou o enredo “Bembé”, inspirado integralmente na celebração realizada em Santo Amaro, levando para a Marquês de Sapucaí referências à rua, ao mercado e ao mar, elementos associados à festa religiosa.
A escola terminou o desfile na segunda colocação do Grupo Especial, com 269,9 pontos, atrás da campeã Viradouro por um décimo. A Vila Isabel ficou na terceira posição da competição realizada no carnaval carioca.
Além do caráter religioso, o Bembé do Mercado segue reunindo comunidades de terreiro, moradores e visitantes em torno de manifestações culturais e atos ligados à preservação das tradições afro-brasileiras. A celebração mantém a ocupação das ruas de Santo Amaro como parte central dos rituais realizados desde o fim do século XIX.