Gravado em Cachoeira, filme ‘Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada’ estréia nos cinemas de todo país

No senso comum, sair do Nordeste em busca de melhores oportunidades no Sudeste do Brasil ainda é visto como o caminho mais seguro para crescer profissionalmente, inclusive no audiovisual.

A ideia contrasta com o fato de a região nordestina ser berço de cineastas e artistas que têm impactado profundamente o cinema brasileiro contemporâneo.

Mas o movimento do cineasta Henrique Garcia segue outra direção. Paulista frustrado com a própria carreira, ele encontra justamente no Recôncavo Baiano a possibilidade de transformação profissional e também pessoal.

A mudança acontece quando ele cruza o caminho de Cristian Mugunzá, fenômeno do pagotrap baiano que, mesmo a contragosto, passa a representar sua chance de recomeço.

Para conhecer melhor essa história, é preciso assistir ao filme Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada, dirigido pela dupla Ary Rosa e Glenda Nicácio, que estreia nesta quinta-feira, 21, nos cinemas.

Os diretores afirmam ter grandes expectativas em relação à recepção do longa. “Principalmente porque sentimos que esse é um filme muito comunicativo, muito alegre e profundamente conectado com o público brasileiro”, destacam. Segundo eles, o filme parte do humor, da música, do afeto e da cultura popular para discutir questões importantes, mas sempre convidando o espectador para perto.

Recôncavo em cena

A produção se passa no Recôncavo Baiano, região onde vivem os cineastas e que serve de pano de fundo para grande parte da filmografia da dupla. Para eles, o território é uma fonte permanente de inspiração.

“Entendemos o Recôncavo como um território profundamente rico em cultura, tradição, costumes, arte, musicalidade e movimento. É um lugar vivo, pulsante, e é sempre dali que nascem os nossos filmes”, afirmam.

‘Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada’ não é o primeiro longa realizado na região. Os diretores Ary Rosa e Glenda Nicácio comandam a Rosza Filmes, produtora independente sediada no Recôncavo da Bahia.

Fundada em 2011, a empresa atua na produção cinematográfica e no desenvolvimento de projetos de cinema e educação.

A produtora foi responsável por obras premiadas como ‘Café com Canela’, ‘Ilha’, ‘Até o Fim, Voltei!’, ‘Mugunzá’ e ‘Na Rédea Curta’. Os filmes participaram de festivais internacionais como o International Film Festival Rotterdam, o Festival Ecrans Noirs e a mostra Soul in the Eye, também realizada em Rotterdam.

“Nos nossos sete longas-metragens, todos gravados no Recôncavo da Bahia, todos têm esse território como ambientação e praticamente todos os personagens pertencem a esse universo”, explicam.

A diferença do novo filme para os anteriores está no fato de o Recôncavo aparecer a partir de um olhar de fora para dentro. Henrique, um cineasta paulistano, chega ao território para dirigir o show do cantor de pagodão e pagotrap Cristian Mugunzá.

“O Recôncavo pulsa em Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada. Ele muda a cor do filme, muda o ritmo do filme, muda a temperatura do filme. O Recôncavo traz o sorriso, a música, o afeto e a vitalidade que atravessam toda a narrativa”.

Mugunzá

No calor histórico e afetivo do Recôncavo Baiano, dois mundos completamente diferentes se encontram. Enquanto Henrique se agarra às glórias do passado e vive cercado por poucas pessoas e uma rotina desgastada, Cristian vive rodeado por amigos fiéis, nada convencionais, além de um público que o aclama por onde passa.

Do choque entre esses universos nasce uma história marcada pelo humor, por encontros improváveis e por afetos. Entre gargalhadas e momentos emocionantes, ‘Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada’ revela como amizades inesperadas podem transformar vidas e devolver cor a quem já havia perdido a esperança.

Segundo os diretores Ary Rosa e Glenda Nicácio, o personagem Cristian Mugunzá é, de certa forma, o próprio Recôncavo personificado. “Quando falamos do Recôncavo, estamos falando de Cristian. E quando falamos de Cristian, estamos falando do Recôncavo”.

Eles descrevem o personagem como uma figura solar, alegre, intensa, atravessada pela tradição do samba de roda, pelo candomblé, pelas festas populares, pelas celebrações da Boa Morte, d’Ajuda e pelos festejos juninos. “Tudo isso está presente no corpo dele, na maneira como fala, age, dança, ocupa os espaços e se relaciona com o mundo”.

Cristian também não chega sozinho. Com ele vem uma série de personagens que contrapõem diretamente o universo intelectualizado, acadêmico e de classe média tradicional carregado por Henrique em sua formação e visão de mundo. É justamente desse encontro, e também desse conflito afetivo e divertido, que nasce a história do filme.

Ao longo da narrativa, o Recôncavo vai atravessando Henrique. O personagem passa a ser impactado pela cultura local, pela musicalidade, pela coletividade e por uma forma própria de enxergar a vida. Essa transformação modifica não apenas Henrique, mas também o próprio tom do longa.

Segundo Renan Motta, ator que interpreta Cristian, o personagem representa o genuíno. “Digo isso em todos os aspectos. A vida anda muito acelerada e somos empurrados para uma superficialidade perigosa”, afirma.

Para o ator, o dinheiro não ocupa o primeiro lugar na vida de Cristian. “Ele é consequência, mesmo para um jovem periférico do interior da Bahia. Acho que isso faz Henrique refletir e olhar para dentro de si, percebendo que afeto, família e amizade são fundamentais para a nossa existência. Acho que isso é o veículo de transformação do Henrique”.

Desafios e expectativas

Em um dado momento do filme, o personagem interpretado por Frank Menezes afirma que “fazer cinema está na contramão dos tempos”, diante das dificuldades para colocar de pé um projeto audiovisual. Essa é uma realidade conhecida de perto por Ary Rosa e Glenda Nicácio.

Os diretores explicam que realizar a obra significou enfrentar os desafios históricos do cinema independente brasileiro, especialmente fora do eixo tradicional do audiovisual.

Segundo a dupla, além das dificuldades de financiamento, circulação e acesso ao mercado, existe também a necessidade de fazer com que produções realizadas no Recôncavo Baiano sejam compreendidas “como parte central do cinema brasileiro e não como algo periférico”.

Ary e Glenda destacam ainda que realizar um filme pensado para a experiência coletiva da sala de cinema se torna ainda mais desafiador em um momento de crise de público.

“Talvez o maior desafio tenha sido justamente esse: continuar acreditando que vale a pena fazer cinema pensando no encontro entre o filme e o espectador”, afirmam. Para eles, concluir o longa foi também um gesto de insistência em continuar filmando no Recôncavo e acreditando no potencial do cinema brasileiro.

Apesar das dificuldades, os cineastas demonstram otimismo em relação à recepção. “Temos uma expectativa muito bonita em relação à recepção de Quem Tem Com Que Me Pague Não Me Deve Nada, principalmente porque sentimos que esse é um filme muito comunicativo, muito alegre e profundamente conectado com o público brasileiro”.

A dupla também reforça a importância da presença do público nas salas já na primeira semana de exibição, considerada decisiva para a permanência dos filmes brasileiros em cartaz.

O longa estreia na quinta, 21, em salas de cinemas em todo o país e, segundo eles, a expectativa é que o público possa “rir, se emocionar, cantar, refletir e viver coletivamente essa experiência”, reafirmando o cinema como “um espaço de encontro, de alegria e de compartilhamento”.

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