O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desafiou o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) a abrir os sigilos bancários e telefônicos durante o primeiro debate do segundo turno das eleições de 2026, realizado neste domingo (18), na sede do Grupo Bandeirantes de Comunicação, em São Paulo. A proposta foi apresentada em meio à troca de acusações sobre corrupção entre os adversários.
“Aqui muito se falou em corrupção. Flávio, tenho um desafio para você: amanhã, abriremos nossas contas bancárias, sigilos telefônicos, para que o povo brasileiro descubra quem é o ladrão neste país”, disse Lula.
O presidente também sugeriu que a medida fosse estendida aos familiares dos dois candidatos, com a entrega dos documentos às autoridades judiciais antes da votação.
“Eu abro de toda minha família, e você abre da sua família. Entregamos ao presidente da Suprema Corte, do TSE, o seu documento e o meu para que avaliem, antes das eleições, quem é quem na história desse país, quem é corrupto, ladrão, senão o povo vai ser enganado outra vez”, completou.
Ao longo de três blocos,Segurança pública, economia, saúde, corrupção e relações internacionais estiveram entre os principais temas discutidos, a uma semana da votação marcada para o próximo domingo (25).
Segurança pública e economia abrem confronto
Flávio defendeu declarar “guerra ao narcoterrorismo”, classificar facções criminosas e milícias como organizações narcoterroristas e recuperar territórios dominados pelo crime. O senador também prometeu endurecer as penas e afirmou que líderes de organizações criminosas poderão ficar até 80 anos presos.
Lula defendeu a atuação conjunta da União, dos estados e dos municípios. Citou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública e a Lei Antifacção, além de defender o combate às organizações criminosas e aos seus financiadores. No entanto, defendeu a saidinha temporária de presos da cadeia em casos de crimes de menor gravidade.
Na economia, o presidente destacou incentivos aos pequenos negócios e aos Microempreendedores Individuais (MEIs), além de investimentos nas economias digital, verde e criativa. Flávio criticou a dívida pública, questionou o custo de vida e prometeu controlar gastos e ajudar famílias endividadas.
No primeiro confronto direto, Lula questionou o voto de Flávio contra a ampliação da licença-maternidade de servidoras estaduais, em 2009. O senador disse não ter “absolutamente nada contra as mulheres”, mas não explicou o posicionamento.
Corrupção e Banco Master elevam tensão
Os candidatos trocaram acusações sobre investigações envolvendo pessoas próximas. Flávio cobrou explicações sobre a empresária Roberta Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente. Lula afirmou que qualquer pessoa deve ser investigada diante de suspeitas, inclusive integrantes de sua família.
O presidente também questionou Flávio sobre o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O presidente citou um pedido de R$ 134 milhões atribuído ao senador em tratativas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
A Polícia Federal (PF) investiga suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção relacionadas ao financiamento. Flávio nega irregularidades e afirmou que o contrato não foi cumprido.
Os dois também discutiram as fraudes em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Lula afirmou que o esquema foi combatido durante sua gestão, enquanto Flávio acusou o governo de não proteger os aposentados e lembrar que Lulinha viveria na Espanha supostamente com dinheiro desviado do INSS.
Saúde, escala 6×1 e maioridade penal
No segundo bloco, Flávio propôs integrar prontuários eletrônicos das redes pública e privada, ampliar a telemedicina e utilizar inteligência artificial no Sistema Único de Saúde (SUS). Também defendeu um padrão de atendimento semelhante ao do Hospital Israelita Albert Einstein.
Lula questionou se as propostas poderiam representar a privatização do SUS e criticou a gestão da saúde durante a pandemia de Covid-19 no governo Bolsonaro. O senador reconheceu dificuldades na área.
“De fato, a saúde não foi uma área que a gente teve o melhor resultado. Eu faço aqui esse mea culpa”, afirmou Flávio Bolsonaro, atribuindo parte dos problemas à pandemia.
Sobre a saída temporária de presos, Flávio defendeu o fim do benefício. Lula sustentou sua manutenção para detentos com bom comportamento, excluindo condenados por crimes violentos.
Na discussão trabalhista, Flávio afirmou ter mudado de posição sobre o fim da escala 6×1 após ouvir trabalhadores. O senador também defendeu a redução da maioridade penal, enquanto Lula declarou apoiar a medida apenas para crimes hediondos.
Relação com EUA e avaliação dos eleitores
No terceiro bloco, Lula questionou a proximidade de Flávio com o presidente argentino Javier Milei e perguntou se o senador adotaria o modelo econômico do país vizinho. Flávio evitou responder diretamente e prometeu fazer um “tesouraço” na corrupção.
Os candidatos também divergiram sobre a relação com os Estados Unidos e a exploração de terras raras brasileiras. Lula acusou a família Bolsonaro de subordinação aos interesses americanos, enquanto Flávio afirmou ter viajado ao país para defender empresas brasileiras.
Pesquisa entre eleitores
Uma pesquisa qualitativa conduzida pelo cientista político Renato Dorgan, do instituto Travessia, a pedido do Estadão, reuniu 12 eleitores, entre apoiadores dos dois candidatos e indecisos. O estudo não tem rigor estatístico e não equivale a uma pesquisa de intenção de voto.
Os participantes classificaram o debate como “decepcionante”, “triste” e “vergonhoso”, apontando excesso de ataques e falta de propostas. Lula recebeu 44,79% de avaliações positivas e 35,42% negativas. Flávio teve 39,06% positivas e 46,88% negativas.
Disputa segue acirrada
Nas considerações finais, Lula defendeu a continuidade do governo e a recuperação da indústria, mas acabou cometendo gafes ao dizer que ao final de um quarto mandato o Brasil estaria acabado. Flávio voltou a apresentar propostas para a segurança e pediu votos.
Pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (15) apontou Flávio com 47% das intenções de voto e Lula com 45%. Levantamento Quaest indicou 46% para o senador e 44% para o presidente. Ambos apontaram empate técnico.
No primeiro turno, Flávio terminou à frente de Lula por cerca de 2,2 milhões de votos. As campanhas intensificam a mobilização para o segundo turno, marcado para o próximo domingo (25).