Conheça o samba enredo da Beija-Flor que faz homenagem a Bembé do Mercado no Carnaval do Rio

A Beija-Flor de Nilópolis levará para a Marquês de Sapucaí, no Carnaval deste ano, no Rio de Janeiro, o enredo sobre o Bembé do Mercado. Na quadra da escola, na Baixada Fluminense, a comunidade se mobiliza para contar a trajetória da maior manifestação de candomblé de rua do mundo, realizada em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano.

Em busca do bicampeonato, a Azul e Branca aposta na força simbólica dessa celebração centenária. No desfile do ano passado, a escola conquistou o título ao homenagear Laíla, histórico diretor de Carnaval que marcou época na Beija-Flor.

Expressão de fé, resistência e identidade – Com mais de 130 anos de existência, o Bembé do Mercado foi escolhido como tema por representar uma das mais relevantes expressões de fé, resistência e identidade do povo negro no Brasil. Criado em 1889, um ano após a abolição da escravidão, o evento reúne atualmente mais de 60 terreiros de religiões de matriz africana e ocupa o espaço público com uma intensa programação cultural que se estende por cinco dias.

“Em Santo Amaro, todo 13 de maio / nossa ancestralidade é festejada à luz do céu”.

O verso do samba-enredo da Beija-Flor de Nilópolis para o Carnaval do Rio de Janeiro de 2026 não é metáfora — é realidade histórica.

O Bembé do Mercado é considerado o maior candomblé de rua do mundo e acontece todos os anos entre os dias 13 e 15 de maio, na cidade de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. Mais do que uma festa, o Bembé é um ato coletivo de fé, memória e ocupação política do espaço público negro.

Quando o mercado virou terreiro

Em 1889, apenas um ano após a assinatura da Lei Áurea, homens e mulheres negras ocuparam o Largo do Mercado Municipal de Santo Amaro com atabaques, flores, comidas e cantos para os orixás. A celebração foi liderada por João de Obá, africano de origem malê, e marcou um gesto radical para a época: negros celebrando sua espiritualidade em plena rua, sem autorização oficial.

A Beija-Flor traduz esse gesto histórico em poesia quando canta:

“Deixa girar que a rua virou Bembé”.

O que antes era um espaço comercial tornou-se território sagrado, político e ancestral. Até hoje, o Bembé reúne mais de 100 terreiros do Recôncavo Baiano, além de visitantes de todo o Brasil e da diáspora.

Uma celebração que une fé, cultura e comunidade

O Bembé é dedicado especialmente às divindades das águas, como Oxum e Iemanjá, e segue rituais tradicionais do candomblé, como Padê de Exu, Orô, Xirê e a entrega de oferendas. Mas também é roda de samba, capoeira, cortejo, culinária, encontro e transmissão de saberes.

O samba-enredo ecoa essa dimensão coletiva quando afirma:

“O povo gira no xirê, a celebrar / a fé se espalha em cada canto”.

Cada edição reafirma que a espiritualidade negra nunca esteve separada da vida cotidiana — ela organiza o território, fortalece laços e sustenta a permanência.

Patrimônio cultural do Brasil e tecnologia ancestral de resistência

Reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil em 2019, o Bembé do Mercado permanece vivo graças à articulação das comunidades de terreiro da região. Atualmente, é conduzido pela Associação Ilê Axé Qjú Onirè, sob liderança do sacerdote Pai Pote, e mobiliza diversos setores da cidade: cultura, educação, comércio, juventude e ancestralidade.

Não por acaso, a letra do samba afirma:

“Não me peça pra calar minha verdade / pois a nossa liberdade não depende de papel”.

O Bembé existe porque o povo negro sustentou sua memória apesar do apagamento, da repressão e da tentativa histórica de silenciamento das culturas afro-brasileiras.

O Bembé do Mercado é sobre o Brasil que resiste

O que a Beija-Flor levará para a avenida em 2026 nasce de um território real, de uma prática viva, de uma tradição que atravessa gerações. O Bembé não é folclore.
É território político,
é espiritualidade coletiva,
é memória em movimento,
é futuro ancestral acontecendo agora.

Samba-Enredo 2026 – Bembé

G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis (RJ)

Atabaque ecoou, liberdade que retumba
Isso aqui vai virar macumba
Atabaque ecoou, liberdade que retumba
Isso aqui vai virar macumba

Deixa girar, que a rua virou Bembé
Deixa girar, que a rua virou Bembé
O meu Egbé faz valer o seu lugar
Laroyê, Beija-Flor, alafiá

Deixa girar, que a rua virou Bembé
Deixa girar, que a rua virou Bembé
O meu Egbé faz valer o seu lugar
Laroyê, Beija-Flor, alafiá

Não me peça pra calar minha verdade
Pois a nossa liberdade não depende de papel
Em Santo Amaro, todo 13 de maio
Nossa ancestralidade é festejada à luz do céu, ê-ê

Ê-ê, João de Obá, griô sagrado
Ê-ê, herança viva no mercado
Cantando, saudamos a nossa fé
As nações do Candomblé
Onde a paz e o respeito
Ressoam no couro do axé funfun
Não tememos ataque algum
A rua ocupamos por direito

Põe erva pra defumar
Um ebó pra proteger
Saraiéié Bokunan, Saraiéié
Nosso povo é da encruza
Arte preta de terreiro
É mistura de cultura
Multidão de macumbeiro

Põe erva pra defumar
Um ebó pra proteger
Saraiéié Bokunan, Saraiéié
Nosso povo é da encruza
Arte preta de terreiro
É mistura de cultura
Multidão de macumbeiro

O povo gira no xirê, a celebrar
A fé se espalha em cada canto, em cada olhar
Transborda magia no toque do tambor
Às Yabás, o balaio e o amor
Yemanjá, alodê no mar, no mar
É d’Oxum toda beleza do ibá

É reza no corpo, é dança na alma
A rosa, a palma, o Omolocum
É Dona Canô de todo recanto
Evoco a Baixada de Todos os Santos

Atabaque ecoou, liberdade que retumba
Isso aqui vai virar macumba
Atabaque ecoou, liberdade que retumba
Isso aqui vai virar macumba

Deixa girar, que a rua virou Bembé
Deixa girar, que a rua virou Bembé
O meu Egbé faz valer o seu lugar
Laroyê, Beija-Flor, alafiá

Deixa girar, que a rua virou Bembé
Deixa girar, que a rua virou Bembé
O meu Egbé faz valer o seu lugar
Laroyê, Beija-Flor, alafiá

Não me peça pra calar minha verdade
Pois a nossa liberdade não depende de papel
Em Santo Amaro, todo 13 de maio
Nossa ancestralidade é festejada à luz do céu, ê-ê

Ê-ê, João de Obá, griô sagrado
Ê-ê, herança viva no mercado
Cantando, saudamos a nossa fé
As nações do Candomblé
Onde a paz e o respeito
Ressoam no couro do axé funfun
Não tememos ataque algum
A rua ocupamos por direito

Põe erva pra defumar
Um ebó pra proteger
Saraiéié Bokunan, Saraiéié
Nosso povo é da encruza
Arte preta de terreiro
É mistura de cultura
Multidão de macumbeiro

Põe erva pra defumar
Um ebó pra proteger
Saraiéié Bokunan, Saraiéié
Nosso povo é da encruza
Arte preta de terreiro
É mistura de cultura
Multidão de macumbeiro

O povo gira no xirê, a celebrar
A fé se espalha em cada canto, em cada olhar
Transborda magia no toque do tambor
Às Yabás, o balaio e o amor
Yemanjá, alodê no mar, no mar
É d’Oxum toda beleza do ibá

É reza no corpo, é dança na alma
A rosa, a palma, o Omolocum
É Dona Canô de todo recanto
Evoco a Baixada de Todos os Santos

Atabaque ecoou, liberdade que retumba
Isso aqui vai virar macumba
Atabaque ecoou, liberdade que retumba
Isso aqui vai virar macumba

Deixa girar, que a rua virou Bembé
Deixa girar, que a rua virou Bembé
O meu Egbé faz valer o seu lugar
Laroyê, Beija-Flor, alafiá

Deixa girar, que a rua virou Bembé
Deixa girar, que a rua virou Bembé
O meu Egbé faz valer o seu lugar
Laroyê, Beija-Flor, alafiá

Composição: Sidney De Pilares / Marquinhos Beija-Flor / Chacal do Sax / Claudio Gladiador / Marcelo Lepiane / João Conga / Diego Oliveira / Diogo Rosa / Manolo / Julio Alves / Leo do Piso / Julio Assis / Cláudio Russo / Salgado Luz

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