Salvador completa 477 anos, neste domingo (29), reafirmando sua posição como a primeira capital e o coração histórico do Brasil. Fundada oficialmente em 1549 por Tomé de Sousa, a cidade foi projetada para ser a sede do governo-geral e uma fortaleza da Coroa Portuguesa, estrategicamente erguida sobre uma escarpa que divide a Cidade Baixa, voltada ao comércio, da Cidade Alta.
A ocupação europeia na região, entretanto, antecede a chegada de Tomé de Sousa em quase 50 anos, refutando a ideia de que ele foi o responsável pelo descobrimento da área. O navegador Américo Vespúcio foi o primeiro europeu a aportar no local, em 1501, mas a presença efetiva começou em 1510, após o naufrágio que trouxe Diogo Álvares Correia, o Caramuru, ao território já habitado por indígenas.
Trajetória da fundação e marcos institucionais
Antes da centralização administrativa pela Coroa, a região da Barra foi o ponto inicial da ocupação colonial em 1534, através das capitanias hereditárias de D. João III. Francisco Pereira Coutinho recebeu as terras e fundou o Arraial do Pereira, nas proximidades da atual Ladeira da Barra. Com o fracasso desse sistema e a morte de Coutinho, Portugal decidiu estabelecer a cidade-fortaleza denominada “do São Salvador”.
O nome original da capital baiana era São Salvador da Baía de Todos os Santos, uma denominação que, com o tempo, foi reduzida para Salvador por necessidade de adaptação ao uso cotidiano. A nomenclatura mantém a referência religiosa direta a Jesus Cristo. Outro marco institucional ocorreu em 1808, com a fundação da Escola de Cirurgia da Bahia, a primeira unidade de ensino superior do país, por determinação de Dom João.
A religiosidade também definiu proteções oficiais para a cidade, como a escolha de São Francisco Xavier como seu padroeiro em 10 de maio de 1688. O título foi concedido após relatos de que o santo teria contido uma peste que atingia a população local na época.
Soteropolitano: significado do gentílico e identidade local
Quem nasce na capital baiana é chamado de soteropolitano, termo que deriva da palavra grega “soterópolis”. A expressão é a junção de “soter”, que significa Salvador, com “polis”, traduzida como cidade. O sufixo “ano” completa a formação para indicar a origem da pessoa, definindo literalmente “aquele que veio da cidade de Salvador”, diferenciando-os de habitantes de outras localidades com nomes semelhantes.
O termo “salvadorense” também existe na língua portuguesa, mas possui uma aplicação geográfica distinta dentro do território nacional. Essa denominação é utilizada especificamente para designar quem nasce no município de Salvador das Missões, localizado no estado do Rio Grande do Sul.
A identidade de Salvador vai além dos rótulos e se manifesta na preservação de seu patrimônio imaterial e na resistência de seus bairros. O Pelourinho, embora carregue a memória de castigos públicos contra negros escravizados, foi ressignificado como um centro de cultura e pulsação musical. Atualmente, o bairro é reconhecido como o maior conjunto arquitetônico barroco fora da Europa e atrai olhares de historiadores e visitantes.
Curiosidades históricas e pioneirismo urbano
Entre as curiosidades que marcam o pioneirismo da cidade, destaca-se o Elevador Lacerda, inaugurado em 8 de dezembro de 1873 como o primeiro elevador urbano do mundo. Na época, a estrutura possuía 63 metros de altura, sendo também a primeira do Brasil. A versão atual do equipamento, entregue em 1930, atingiu os 72 metros e permanece como o principal elo de ligação entre as praças Cairu e Municipal.
Na Cidade Baixa, o Mercado Modelo permanece como um símbolo de resiliência comercial após sobreviver a diversos incêndios ao longo de sua história. O prédio, que já funcionou como alfândega, abriga hoje o maior centro de artesanato da Bahia e mantém mistérios em suas galerias subterrâneas.
A gastronomia soteropolitana é outra herança que preserva a trajetória da cidade, unindo o azeite de dendê africano ao cotidiano urbano. O ofício das baianas de acarajé, reconhecido como Patrimônio Imaterial do Brasil, representa tanto uma tradição religiosa quanto uma ferramenta de sobrevivência econômica secular.