Conforme a decisão, Bolsonaro permanecerá na Superintendência da Polícia Federal (PF), onde já estava preso preventivamente por ter violado a tornozeleira eletrônica.
Jair Bolsonaro tem uma trajetória rara na política brasileira. Ele surpreendeu o país ao se eleger para o cargo mais alto da República em 2018.
Candidato por um partido pequeno e com pouco tempo de televisão, venceu as eleições com uma campanha centrada nas redes sociais, na retórica antissistema e no resgate de valores da direita conservadora.
Seu governo foi marcado por uma relação turbulenta com os outros Poderes, por uma atuação negacionista durante a pandemia de Covid-19 e por tentativas sistemáticas de minar a confiança nas urnas eletrônicas e no sistema eleitoral brasileiro.
Após deixar o Palácio do Planalto, ele passou a responder a processos na Justiça, até a condenação por golpe de Estado, em setembro.
Como a condenação de Bolsonaro é superior a oito anos (27 anos e 3 meses), ele inicia a execução da pena em regime fechado, ou seja, na cadeia.
Primeiros anos e carreira militar
Filho de Percy Bolsonaro, dentista prático, e Olinda Bonturi, passou a infância em cidades do interior paulista até se fixar com a família em Eldorado (SP).
Na juventude, ingressou na carreira militar ao ser aprovado na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), depois na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), formando-se em 1977 como oficial da Artilharia.
Na caserna, Bolsonaro fez cursos especializados, como o de paraquedismo, e chegou ao posto de capitão. Mas sua trajetória militar terminou em meio a controvérsias.
Foi punido após publicar artigo criticando os salários da tropa e acabou acusado de planejar atentados com explosivos em quartéis, conforme reportagem da Veja. Embora tenha negado o plano, o episódio marcou sua transição da vida militar para a política.
A longa trajetória no Congresso
Na Câmara, ganhou fama como defensor intransigente das Forças Armadas e de pautas conservadoras. Durante anos, ficou à margem dos debates centrais do Legislativo, mas acumulou notoriedade entre segmentos da população que se viam sem representação.
Foi também como deputado que Bolsonaro protagonizou polêmicas que o tornaram figura nacional. Em 2016, durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff, prestou homenagem ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido como torturador durante a ditadura militar.
Para seus críticos, esse gesto sintetizava sua visão autoritária; para seus apoiadores, era um aceno à ordem e à disciplina.
A eleição de 2018: redes sociais, antipetismo e discurso de ruptura
Sem tempo de TV, com pouco apoio partidário e após sair do PSL para o pequeno Partido Liberal, venceu uma campanha altamente polarizada, marcada por sua retórica anticorrupção, conservadora nos costumes e liberal na economia.
O atentado a faca sofrido em Juiz de Fora (MG) impediu sua participação em debates, ao mesmo tempo em que reforçou a imagem de “guerreiro contra o sistema”.
No segundo turno, derrotou Fernando Haddad (PT) com mais de 55% dos votos, levando a direita ao poder com forte apoio das redes sociais e de movimentos evangélicos e militares.
Governo: reformas, pautas de costume, negacionismo e conflitos institucionais
Ao assumir a presidência, Bolsonaro nomeou uma equipe ministerial que combinava militares, quadros ideológicos e nomes técnicos. Paulo Guedes, na Economia, ficou com carta branca para implementar uma agenda liberal, baseada na promessa de ajuste fiscal, redução do tamanho do Estado e abertura econômica.
Sob sua gestão, o governo aprovou uma das principais reformas do mandato: a reforma da Previdência, promulgada em 2019, após articulação no Congresso.
Na prática, porém, o ajuste fiscal teve alcance limitado. O crescimento do PIB foi tímido — com exceção de um pico em 2021 após a forte queda de 2020 — e a dívida pública seguiu em trajetória ascendente.
A prometida abertura da economia foi adiada, e medidas estruturais, como a reforma tributária, não saíram do papel.
Paralelamente, Bolsonaro adotou uma agenda de costumes agressiva. Incentivou projetos que facilitaram o acesso a armas de fogo e mobilizou sua base parlamentar e digital contra temas ligados à diversidade, educação sexual e questões ambientais. Conflitos com o STF, governadores e a imprensa foram constantes.
Durante a pandemia de Covid-19, Bolsonaro adotou postura negacionista: minimizou os efeitos do vírus, ironizou o uso de máscaras, atrasou a compra de vacinas, promoveu medicamentos sem eficácia comprovada e confrontou as medidas sanitárias adotadas por estados e municípios.
Queda de popularidade, tentativa de reeleição e atos golpistas
Organizou motociatas, comícios e manifestações, e chegou a reunir embaixadores para espalhar suspeitas infundadas sobre as urnas eletrônicas.
Em outubro, foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno, na eleição mais acirrada da história recente do país.
Após o resultado, manteve-se em silêncio por semanas e viajou aos EUA antes mesmo de transmitir a faixa presidencial.
Embora tenha negado envolvimento, investigações posteriores apontaram que Bolsonaro estimulou, nos bastidores, ações para deslegitimar a eleição.
Busca por anistia
No ano seguinte, o Supremo Tribunal Federal o tornou réu por tentativa de golpe de Estado — a primeira vez que um ex-presidente da República respondia formalmente por esse tipo de crime.
Em setembro de 2025, ele foi condenado a 27 anos e três meses de prisão.
Desde então, Bolsonaro passou a articular, junto a aliados, uma proposta de anistia ampla aos envolvidos nos atos golpistas.
Participou de manifestações públicas, percorreu o país em busca de apoio e fez reiteradas declarações de que “não iria preso”. A despeito de seu desgaste político e jurídico, continuou como figura central da direita brasileira.