Artigo “Uma leitura crítica da produção sociológica da USP” por Gustavo Falcón

Trinta anos depois de escrever sobre a temática universitária no Brasil, analisando, no livro Avant-Garde na Bahia, publicado pelo Instituto Lina Bardi e Pietro Maria Bardi, em 1995, o feliz encontro da cultura erudita superior com o rico acervo da cultura
popular baiana, o antropólogo Antonio Risério volta ao tema. No seu instigante livro sobre a Universidade Federal da Bahia, discute o que chama de aventura pragmática do Magnífico (verdadeiramente) reitor Edgar Santos (anos 1950-1960), ao trazer para os quadros da universidade que inaugurava
importantes nomes da cultura europeia que, atormentados pelas males da guerra, desejavam ares mais respiráveis. Entre eles, Walter Smetak, Ernst Widmer e Hans Joachim Koellreuter, no campo da música erudita, o filósofo luso Agostinho da Silva, a professora de dança polonesa Yanka Rudzka, que, junto a Martin
Gonçalves, implantaram o ensino de nível universitário de artes – música, dança e teatro -, iniciativas que acabaram se responsabilizando pela irrupção, posteriormente, de dois grandes fenômenos da cultura brasileira recente: o Cinema Novo e o Tropicalismo. O primeiro, liderado por um ex-estudante de Direito, ninguém menos que Gláuber Rocha. O segundo, sob forte influência de estudante de filosofia, Caetano Veloso.

Dessa vez, a universidade em tela é a Universidade de São Paulo, a famosa USP, a mais prestigiosa do Brasil, uma das mais importantes da América. E o foco, não a sua proeminente produção científica, mas o aleijão que causou na construção de um pensamento crítico sobre o Brasil e estrago que fez, ao
bombardear por sucessivas gerações pensadores brasileiros que buscaram uma compreensão de nossa realidade livres dos cabrestos ideológicos de modelos de interpretação submetidos ao crivo do colonialismo ou do positivismo marxista.
Antonio Risério é uma ave rara na fauna da intelectualidade brasileira contemporânea, a maior parte dela presa nas malhas de uma teia politico-partidária que bloqueia a autonomia e o
raciocínio além dos limites ou horizontes do restrito campo do que se chama, hoje, de esquerda. Antes, revolucionária, atualmente fisiológica. Sua vasta produção pode ser consultada dando-se um Google e sua ousadia e independência tem-lhe custado caro. Do
cancelamento à restrição de trabalho. Do seu “gulag” baiano, a ilha de Itaparica, aos 73 anos, ele continua atirando, sempre com boa munição e um refinado senso analítico, metendo o dedo na
ferida de tantos quantos trabalham contra uma análise lúcida do Brasil.

Nesse novo livro, que acaba de sair da gráfica e chega às livrarias nos próximos dias, ele se volta contra o que classifica como a “sociologia marxista da casa-grande uspiana”, praticada
por aqueles que já foram considerados nossos mestres, como Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso. E, sem papas na língua, denuncia o chamado monopólio do pensamento social brasileiro, que invectivou contra pensadores importantes do Brasil, bloqueando e combatendo seus ensinamentos (casos de Ruy Mauro Marini e Roberto Mangabeira Unger), além de dar as costas ao passado, onde rebrilharam nomes como José Bonifácio, Joaquim Nabuco, Euclydes da Cunha e Alberto Torres.

Além da crítica à visão paulistocêntrica da cultura brasileira, o livro traz ensaios retrospectivos das obras de Gilberto Freyre, sem deslumbramentos e submissão, Florestan Fernandes, Darcy
Ribeiro, Alberto Guerreiro Ramos, que são guias importantes para aqueles que desejam conhecer esses clássicos ou rever seus títulos mediante uma leitura orientada.

Complementa o trabalho, dois outros ensaios. Um deles, de minha autoria, onde retomo a trilha do pensamento de Fernando Henrique Cardoso e Ruy Mauro Marini, fazendo uma leitura comparativa dessas duas vertentes da interpretação do fenômeno do subdesenvolvimento. E o outro, de Carlos Sávio Gomes Teixeira, sobre a atualidade e importância da produção de Roberto Mangabeira Unger.

Penso que esse novo livro de Antonio Risério tem dois inegáveis méritos: primeiro, desmistifica a hegemonia da
sociologia uspiana na hierarquia da produção acadêmica brasileira. Inicialmente, colocando-a sob uma perspectiva crítica que historiza sua constituição, seu desenvolvimento e o contexto em que se forjou, repetindo o figurino francês em que se inspirou.
Em segundo lugar, o livro facilita para o público a compreensão da evolução do pensamento social no Brasil, não só porque mostra que ele é anterior à formação das instituições universitárias, mas principalmente como as teorias e modelos interpretativos dos
autores se articulam com as correntes prevalecentes nas diferentes conjunturas e servem não só como leituras da
realidade mas, principalmente, como fonte para formulações ideológicas que apontam para a superação daquilo que os intérpretes entendem como saída para os nossos principais problemas.

Se, no seu Avant-Garde na Bahia, o autor desvendou para todos uma experiência universitária enriquecedora e criativa,
nesse seu A Sociologia Paulista Contra o Pensameto Social Brasileiro põe a produção acadêmica da maior universidade brasileira de joelhos. Posso assegurar que esse livro não passará em brancas nuvens.

Gustavo Falcón é jornalista e escritor, autor de “Do reformismo à Luta Armada: A Trajetória Política de Mário Alves”, dentre outros livros.

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