ACM Neto chama Jerônimo de ‘mentiroso’ e acusa Ronaldo Mansur de dobradinha em debate

O ex-prefeito de Salvador e candidato ao Governo da Bahia, ACM Neto (União Brasil), concentrou sua participação no primeiro debate eleitoral de 2026, na TV Band Bahia, na noite deste domingo (9), nos ataques à gestão do governador Jerônimo Rodrigues (PT). Como já era esperado, Neto explorou principalmente os problemas da segurança pública e da saúde, acusou o petista de viver em uma realidade distante da população baiana, chamada por ele de “Jerolândia”, e afirmou que o governador costuma transferir a responsabilidade pelos problemas do Estado. O ex-prefeito também questionou obras e promessas que, segundo ele, ainda não saíram do papel, como a Ponte Salvador-Itaparica.

O momento de maior tensão ocorreu no confronto direto entre os dois, quando ACM Neto acusou Jerônimo de mentir ao comentar a situação de um trecho da BR-324. Além dos ataques ao governador, o candidato também acusou o presidente estadual do PSOL, Ronaldo Mansur, de fazer uma “dobradinha” com o petista durante o debate para atacá-lo.

Por outro lado, apesar de afirmar que seu candidato à Presidência da República é o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD-GO), Neto evitou responder diretamente às perguntas sobre eventual apoio do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que também disputa a Presidência, e desconversou em duas oportunidades quando questionado sobre sua relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

“Governador Jerônimo, o senhor mentiu naquele momento à população baiana, ou o senhor estava mal informado e mal assessorado pela sua equipe? Porque o senhor disse que o buraco estava tapado e foi desmentido imediatamente pelo próprio cidadão baiano que usa a BR-324. Era mentira do senhor ou era desinformação do senhor e da sua equipe?”, provocou Neto

ACM Neto concentra discurso em segurança e saúde

Mediado pela jornalista Carolina Rosa, o debate da TV Band Bahia foi dividido em três blocos. No primeiro, os candidatos responderam a uma pergunta comum sobre segurança pública, relacionada ao fato de a Bahia apresentar um dos maiores números de feminicídios do país. Em seguida, houve confrontos diretos entre os participantes.

Na abertura, ACM Neto apresentou o programa Volta por Cima, uma das propostas de seu plano de governo para o enfrentamento da violência contra a mulher. A iniciativa prevê auxílio financeiro por até 24 meses para mulheres de baixa renda, além de qualificação profissional, apoio ao empreendedorismo e medidas para ampliar a proteção das vítimas.

“Primeiro, a gente precisa registrar que a Bahia é a quarta em feminicídio, mas é o estado do Brasil onde mais morrem mulheres, infelizmente, mulheres, jovens e negros. Compreendendo o problema do feminicídio, nós estamos apresentando uma proposta em nosso plano de governo, que é o projeto Volta por cima. É um apoio financeiro que nós vamos dar às mulheres de baixa renda, às mulheres mais pobres do nosso estado, por até 24 meses”.

Neto também defendeu o funcionamento das delegacias especializadas no atendimento às mulheres durante 24 horas, maior rigor contra os agressores e monitoramento eletrônico após a saída do sistema prisional. Na sequência do debate, porém, a estratégia do candidato passou a se concentrar diretamente na gestão estadual. Segurança pública e saúde foram os temas mais recorrentes nas críticas ao governo Jerônimo.

“Jerolândia” vira marca dos ataques contra Jerônimo

Ao responder questionamentos sobre a segurança pública, ACM Neto afirmou que o governador teria criado uma espécie de “realidade paralela” para explicar os problemas enfrentados pela Bahia.

“Esse debate está sendo muito bom porque fica claro qual é a diferença minha para Jerônimo Rodrigues. Na verdade, ele criou uma realidade paralela. Tem gente até na Internet que fala que esse é o ‘sabor governador’, porque quando ele foi perguntado, a primeira resposta que ele deu, vocês ouviram, tá na boca dele, a primeira resposta que ele deu foi que esse é um problema internacional. Ele sempre faz isso. O problema do prefeito, o problema de Lula, o problema internacional. O problema não é dele, o governador”.

A crítica foi repetida em diferentes momentos e ganhou a expressão “Jerolândia”, utilizada por Neto para se referir à realidade apresentada pelo governador em seus discursos. O candidato também prometeu, caso seja eleito, assumir diretamente o comando das ações de segurança pública, com integração entre as forças policiais, investimentos em tecnologia, valorização dos profissionais e isolamento de lideranças criminosas.

“Pois eu quero dizer, Jerônimo, que, se Deus me der a oportunidade de ser governador, eu vou me envolver diretamente na solução da segurança pública no estado da Bahia. Haverá a governadoria da segurança onde o governador vai reunir todos os comandos da capital e do interior, os delegados, integrar as polícias, trabalhar com tecnologia com o que há de mais moderno no Brasil e no mundo no combate ao crime”, disse o candidato do União Brasil.

Neto também criticou o sistema prisional e defendeu presídios de segurança máxima para líderes de facções criminosas. “Chefe de facção vai estar isolado em presídio de segurança máxima, diferente dos presídios de Jerônimo. Veja o que aconteceu em Eunápolis, o que aconteceu em Serrinha, que se transformaram em escândalos nacionais”.

Saúde vira outro eixo de confronto

No segundo bloco, ACM Neto escolheu Jerônimo Rodrigues para o confronto direto. O ex-prefeito questionou o governador sobre a fila da regulação e os atendimentos hospitalares no Estado.

“Na fila da regulação, esperando por um internamento hospitalar ou por um atendimento médico. Governador, eu queria olhar para o senhor aqui, de frente, com muita sinceridade. O senhor não tem dor no coração, o senhor não sente isso, isso não lhe toca como governador, saber que tantas pessoas estão morrendo no seu estado”.

Jerônimo respondeu atribuindo parte dos problemas atuais à herança de administrações anteriores e questionou o número de hospitais construídos pelo grupo político de ACM Neto ao longo de décadas. Na tréplica, Neto acusou novamente o governador de não assumir responsabilidades.

“Mais uma vez, Jerônimo transfere a responsabilidade para os outros porque o problema nunca é com ele”.

O candidato citou casos de pacientes que, segundo ele, morreram enquanto aguardavam atendimento e cobrou uma manifestação pública do governador sobre essas situações. “Mais 4 anos do senhor no governo significa mais gente morrendo vítima da violência, mais gente morrendo na fila da regulação. Os nossos jovens com o seu futuro sacrificados, e eu tenho certeza, Jerônimo, que hoje as pessoas já perceberam isso. Eu fui testado e aprovado, você testado e reprovado”.

Para a saúde, Neto apresentou o Pix Saúde, proposta que prevê a utilização da rede privada quando não houver disponibilidade de atendimento no sistema público e houver risco para o paciente. “Este é Pix Saúde entre ajudar a pagar na rede particular e deixar a pessoa morrer esperando na fila eu prefiro pagar”.

O ex-prefeito também defendeu sua experiência administrativa em Salvador, citando na sua gestão a construção do primeiro hospital municipal e a ampliação da rede de Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). “Eu fui prefeito, testado e aprovado, saí da prefeitura com mais de 80% de aprovação. Hoje, os baianos rejeitam o seu governo e pedem mudança, a Bahia quer mudança e é exatamente isso que eu quero oferecer, a começar pela segurança pública para devolver a paz e a tranquilidade ao cidadão de bem”.

Neto chama Jerônimo de “mentiroso” durante confronto

O ponto de maior tensão do debate ocorreu no confronto direto entre ACM Neto e Jerônimo Rodrigues, quando o ex-prefeito questionou o governador sobre uma declaração envolvendo um buraco na BR-324, trecho entre Salvador e Feira de Santana. Neto perguntou se Jerônimo havia mentido ao afirmar que o problema havia sido resolvido ou se teria recebido uma informação equivocada de sua equipe.

Jerônimo afirmou que não chamaria o adversário de mentiroso e criticou a forma como Neto trata adversários políticos. O governador também associou o comportamento do ex-prefeito a uma postura de desrespeito.

Na tréplica, Neto voltou a dizer que Jerônimo estaria tentando se colocar como vítima e retomou as críticas às promessas do governo estadual. “Da mesma forma que o senhor disse que ia fazer a parceria na ponte Salvador/Itaparica, levou o presidente da República, tirou uma foto com os candidatos ao Senado e não tem um estaca batida”.

O candidato utilizou a Ponte Salvador-Itaparica como símbolo do que considera promessas não concretizadas.

Ponte Salvador-Itaparica entra no confronto

A obra foi um dos principais exemplos utilizados por ACM Neto para questionar a capacidade de entrega da atual administração. O candidato também relacionou o projeto à parceria política entre Jerônimo e Lula. “É essa mesma conversa, você tenta se fazer de vítima, Jerônimo. Vítimas são os milhares de baianos que estão morrendo pela violência, que estão morrendo na fila da regulação, é o nosso jovem que está perdendo a sua vida, perdendo seu futuro, perdendo sua esperança”.

Jerônimo rebateu afirmando que a ponte está em execução e citou a construção de pilares em Vera Cruz. O governador também mencionou outras obras e investimentos realizados durante as gestões petistas.

Programa de governo também é alvo de confronto

Outro assunto explorado durante o debate foi o programa de governo de ACM Neto. Jerônimo voltou a questionar a elaboração do documento e fez críticas relacionadas à utilização de inteligência artificial (IA).

Neto reagiu acusando o governador de apresentar informações falsas sobre seu plano. “O governador Jerônimo falou em relação ao nosso plano de governo, falou da riqueza do plano de governo dele, tá lá o registro que eles fizeram, tem 13 páginas, e aqui governador, o senhor falou duas mentiras, primeiro que eu contratei consultoria em Belford Roxo, não é verdade, isso é mentira, mentira do governador Jerônimo, e a segunda coisa que o senhor falou, que 60% foi de IA, também é outra mentira, inclusive da jornalista que fez a matéria, e já foi desmentida por mim”.

A partir desse momento, o termo “mentira” passou a ocupar espaço central no confronto entre os dois candidatos.

Mansur é acusado de fazer “dobradinha” com Jerônimo

Ronaldo Mansur também entrou na mira de ACM Neto. Durante um dos confrontos, o candidato do PSOL questionou a posição do ex-prefeito em relação ao presidente Lula e perguntou sobre seu alinhamento na disputa presidencial.

“Quero ter meu nome atrelado às soluções para a Bahia. Eu quero ter o meu nome atrelado a um governo que vai enfrentar o problema da violência, o problema da fila da regulação.”

Em seguida, Neto acusou Mansur de atuar em conjunto com Jerônimo durante o debate.

“E tem uma coisa candidato, fica muito claro nesse debate, você fazer um jogo combinado com Jerônimo, mas a gente sabe porque, você foi sócio desse governo, é sócio do governo, ajudou a eleger Jerônimo Rodrigues, só que em outubro desse ano os baianos vão permitir que se comece uma nova história para o nosso Estado”.

A acusação foi rebatida por Mansur, que associou Neto ao campo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e citou os aliados do ex-prefeito.

Neto evita perguntas sobre Lula e Flávio Bolsonaro

Apesar de ter sido questionado em diferentes momentos sobre sua relação com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ACM Neto preferiu não transformar o tema em um confronto direto com o presidente. O ex-prefeito reafirmou que seu candidato à Presidência é Ronaldo Caiado, mas não respondeu diretamente às perguntas sobre uma eventual aproximação com Lula ou sobre a possibilidade de receber apoio do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

A estratégia de Neto foi deslocar o debate nacional para questões estaduais e reforçar que sua prioridade seria apresentar soluções para problemas como segurança, saúde, educação, desemprego e infraestrutura. “Eu quero ter o meu nome atrelado a essas soluções que o baiano tanto precisa”.

A postura também evitou que o debate estadual se transformasse em uma disputa direta sobre Lula e o bolsonarismo, tema que poderia ampliar a polarização e deslocar o foco da estratégia adotada por Neto para atacar a gestão estadual.

ACM Neto descarta privatização do Planserv

Questionado sobre o futuro do Plano de Saúde dos Servidores Públicos Estaduais (Planserv), ACM Neto negou que pretenda privatizar a gestão do serviço caso seja eleito governador. O candidato afirmou que, durante sua administração em Salvador, criou um plano de saúde para os servidores municipais e criticou a atual situação do Planserv.

“Ninguém vai privatizar o Planserv”, cravou.

Neto afirmou que pretende ampliar a rede de clínicas e hospitais credenciados em toda a Bahia, principalmente no interior, onde, segundo ele, há maior dificuldade de acesso a determinadas especialidades. O candidato também citou o “Pix Saúde”, proposta que prevê o custeio de atendimento na rede particular quando não houver vaga disponível na rede pública em casos de urgência.

“Entre ajudar a pagar na rede particular e deixar a pessoa morrer esperando na fila, eu prefiro pagar”.

Economia entra no bloco final do debate

No terceiro bloco, os candidatos responderam a perguntas sobre os temas mais comentados na internet, e a economia da Bahia foi o assunto escolhido. ACM Neto aproveitou a oportunidade para apresentar a educação como uma das bases do desenvolvimento econômico e voltou a criticar os resultados do estado no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). O candidato afirmou que, se eleito, pretende elaborar planos de desenvolvimento econômico específicos para os 27 territórios de identidade da Bahia, considerando as vocações e necessidades de cada região.

Neto também relacionou o desenvolvimento econômico à melhoria da infraestrutura, citando aeroportos, rodovias, ferrovias e portos. Entre os gargalos mencionados, apontou problemas em aeroportos de regiões turísticas, a situação da BR-324, a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) e o Porto Sul, em Ilhéus.

“As nossas obras de infraestrutura não serão obras eleitoreiras ou papéis assinados com ordem de serviço para tentar conseguir algum voto”, criticou.

Segundo o candidato, a proposta é vincular os investimentos em infraestrutura às metas de crescimento econômico de cada região para tentar destravar atividades produtivas e ampliar o desenvolvimento do estado.

“Jerônimo merece mais 4 anos?”

Nas considerações finais, ACM Neto retomou a estratégia de questionar os resultados da gestão estadual e pediu ao eleitor uma avaliação sobre a possibilidade de Jerônimo permanecer no cargo por mais quatro anos. “Será que jerônimo Rodrigues merece mais 4 anos para continuar governando a Bahia? Será que tudo que ele prometeu há quatro anos atrás ele entregou nesse período? Será que os baianos precisam continuar entregues à violência, fila da regulação, a pior nota da educação no Brasil, as obras que não saem da propaganda ou do papel? Eu acho que não.”

O candidato encerrou sua participação destacando sua trajetória como prefeito de Salvador e os integrantes de sua chapa, entre eles o candidato a vice-governador Zé Cocá (PP) e os candidatos ao Senado João Roma (PL) e Angelo Coronel (Republicanos), que busca a reeleição agora pela oposição ao atual governo.

“Eu quero ser governador para ser parte da solução, para chamar a responsabilidade para mim e para poder deixar um legado de transformação na Bahia, assim como eu fiz em Salvador.”

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