O incidente aéreo que obrigou o retorno de uma aeronave transportando as principais lideranças da oposição baiana na última segunda-feira (8) ganhou desdobramentos de alta gravidade. Em entrevistas concedidas às rádios Metropolitana, Feliz FM e CBN Salvador, o senador Angelo Coronel (Republicanos) revelou que o Congresso Nacional acionou formalmente o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e a Polícia Federal para apurar as causas do ocorrido. O parlamentar cobrou uma investigação “à exaustão” e não descartou nenhuma hipótese para a falha do jato executivo, incluindo a possibilidade de sabotagem.
A bordo do bimotor Cessna Citation CJ-1, fretado pelo diretório nacional do União Brasil, estavam o pré-candidato ao governo ACM Neto (União Brasil), os pré-candidatos ao Senado da chapa, Angelo Coronel (que busca a reeleição) e João Roma (PL), a deputada federal Roberta Roma (PL), o deputado estadual Nelson Leal (PP) e dois tripulantes. O grupo decolou de Salvador com destino a uma agenda política em Brumado, no Sudoeste baiano, quando a cabine sofreu uma despressurização abrupta a 30 mil pés de altitude, forçando o piloto a embicar o aparelho em um mergulho de emergência para retornar à capital.
Queda livre de 20 mil pés e relatos de pânico na cabine
Ao detalhar a pane mecânica, Coronel rebateu as tentativas de minimizar o ocorrido, explicando que o procedimento de descida forçada simulou uma queda livre.
“Você está com 30 mil pés de altura. Depois cai repentinamente para em torno de 10 mil pés. Imagina a diferença, em uma velocidade grande, em queda livre, como se fosse um mergulho. Só restava orar e pedir a Deus”, relembrou.
Apesar de possuir mais de duas décadas de experiência utilizando a aviação de forma frequente, o senador de 68 anos admitiu que o episódio foi o pior trauma de sua vida. “Eu virei um neném. Fiquei em estado de choque. Talvez porque eu soubesse exatamente o que poderia acontecer se aquela descida não fosse feita rapidamente”, desabafou Coronel, revelando que ainda acorda assustado com as memórias e que ACM Neto, convicto de que o avião iria cair, agarrou-se às próprias pernas durante os quase três minutos em que a aeronave despencava embicada.
O ex-ministro da Cidadania João Roma corroborou o clima de desespero dentro do bimotor. Ele pontuou que tentou manter a serenidade e sua esposa, a deputada Roberta Roma, agiu rápido para amparar Coronel, colocando a mão em seu peito para tentar acalmá-lo no momento em que os alarmes dispararam.
“Houve um barulho muito forte, as máscaras caíram, começaram os alarmes e o avião deu uma guinada. A sensação foi realmente de horror. Foi uma queda muito brusca. Foram cerca de três minutos de tensão extrema”, relatou.
Pressão por perícia técnica e suspeita de interferência externa
A gravidade do susto fez com que a Mesa Diretora do Senado Federal entrasse no circuito para garantir a lisura e o rigor nas investigações sobre as condições do voo. Coronel confirmou que formalizou o relatório do sinistro e que a polícia judiciária e o órgão da Aeronáutica já estão com o caso em mãos. “O Senado já deve ter encaminhado isso para o Cenipa e para a Polícia Federal analisarem o que aconteceu com a aeronave. Só uma investigação técnica poderá esclarecer o que houve”, pontuou.
Embora tenha ponderado que não deseja emitir julgamentos antecipados sem laudos periciais conclusivos, o congressista adotou uma postura firme ao não fechar portas para hipóteses criminosas.
“Não quero ser irresponsável e dizer que houve sabotagem. Mas também não quero descartar nada. Tem que investigar tudo, até para saber se foi uma falha mecânica, humana ou algo provocado”, declarou o senador.
Oposição reage e acusa Rui Costa de “chacota” e falta de empatia
O episódio também gerou faíscas no campo político devido às declarações do ex-governador e ex-ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT). Em coletiva de imprensa, o petista – que é pré-candidato ao Senado ao lado do senador Jaques Wagner (PT) na chapa do governador Jerônimo Rodrigues (PT) – buscou relativizar o evento, comparando-o a turbulências cotidianas. “Quem anda de avião, como quem anda de carro, está sujeito a turbulências e riscos. Eu mesmo já enfrentei situações complicadas, inclusive com um avião do Estado que perdeu uma turbina, e no dia seguinte estava cumprindo agenda normalmente”, declarou Rui.
A fala foi recebida com profunda indignação pelos sobreviventes do voo. Coronel subiu o tom contra o adversário. “Ele foi muito infeliz. Não foi uma turbulência. Foi uma situação que poderia ter levado sete pessoas à morte. O silêncio teria sido mais humano do que a ironia que ele fez”, rebateu, completando que “foi uma chacota com um problema que poderia ter terminado em tragédia. Politizar uma situação dessas é algo absurdo”, pontuou o agora ex-aliado do grupo petista.
João Roma endossou as críticas e elogiou, por outro lado, a postura institucional adotada pelo atual governador baiano, Jerônimo Rodrigues (PT), que prestou solidariedade ao grupo de oposição.
“A política não pode ser um ambiente onde vale tudo. Faltou empatia. Nem tudo pode ser transformado em palanque eleitoral. Não dá para desdenhar do sofrimento das pessoas. O próprio governador foi por outra linha. Houve solidariedade. Acho que esse deveria ser o comportamento diante de uma situação como essa”, avaliou o presidente do PL na Bahia.
Retomada dos voos e novos critérios de segurança de bordo
Apesar do forte abalo psicológico, os líderes oposicionistas asseguraram que o calendário de viagens e os compromissos de pré-campanha no interior não serão interrompidos. Roma, inclusive, voltou a embarcar em uma aeronave menos de 24 horas após a pane para marcar presença na abertura da feira agrícola Bahia Farm Show, em Luís Eduardo Magalhães. “Não dá para criar trauma. Temos uma missão e precisamos seguir em frente”, disse o ex-ministro.
Contudo, Angelo Coronel alertou que a rotina de deslocamentos da comissão passará por uma blindagem rigorosa a partir de agora, exigindo auditorias completas nos táxis aéreos contratados antes de qualquer decolagem. “Não dá mais para entrar em uma aeronave sem conhecer toda a vida dela: mapa de revisão, histórico de manutenção e experiência dos pilotos. Vamos redobrar os cuidados”, finalizou o senador.