Bahia já sente impacto do tarifaço de Trump ao Brasil

Exportações brasileiras de frutas e pescados para os Estados Unidos estão temporariamente paralisadas

A imposição de uma nova tarifa sobre produtos brasileiros pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode desencadear uma crise sem precedentes na fruticultura irrigada do Vale do São Francisco, que abrange municípios da Bahia e de Pernambuco, informa Carlos Madeiro em sua coluna no portal UOL. A taxa entra em vigor no dia 1º de agosto, justamente no início do período mais estratégico para a exportação de manga da região aos EUA — a chamada “janela americana”, que se estende até novembro.

Em 2024, durante esse mesmo período, o Brasil exportou 34 mil toneladas da fruta para o mercado estadunidense. Neste ano, com a tarifa adicional, a operação logística e comercial para os Estados Unidos se torna, segundo os produtores, economicamente inviável. A expectativa é de que o impacto seja direto sobre a renda, os empregos e até a sobrevivência da cadeia produtiva local, responsável por cerca de 250 mil empregos diretos e 950 mil indiretos.

Produtores alertam Lula e temem paralisação do setor

Na tentativa de evitar o pior cenário, a Valexport — Associação dos Produtores e Exportadores de Hortigranjeiros e Derivados do Vale do São Francisco — enviou uma carta às autoridades brasileiras, incluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a Embaixada dos EUA no Brasil. O documento, entregue pessoalmente durante visita de Lula a Juazeiro (BA), alerta para os “efeitos devastadores da nova tarifa sobre as exportações brasileiras de frutas”.

“A nova tarifa compromete diretamente o principal canal de escoamento da produção, ou seja, mais de 50% da manga produzida no Vale entre os meses de agosto e novembro, período da principal safra, é exportada para os EUA. Estamos a menos de três semanas do início desse ciclo, e essa tarifa inviabiliza totalmente a operação logística e comercial para esse mercado, ameaçando paralisar a atividade em toda a região”, afirma a nota da entidade.

Os Estados Unidos são atualmente o terceiro maior comprador de mangas da região, representando 14% das exportações. O Vale do São Francisco responde por mais de 90% da manga exportada pelo Brasil.

Mercados alternativos não absorvem demanda

Segundo Tassio Lustoza, diretor da Valexport, não há alternativas viáveis no curto prazo para absorver a produção destinada aos EUA. “Ele já vai estar operando no máximo no período da janela americana, e o mercado interno não absorve esse volume. Estamos falando de aproximadamente 50 mil toneladas”, explicou.

Ele afirma ainda que os países asiáticos não têm estrutura para substituir os estadunidenses. “A verdade é que o não envio da fruta para os EUA poderá gerar um colapso na atividade da nossa região”, completa.

Os compradores dos EUA já teriam sinalizado que, se a tarifa for mantida, poderão adquirir no máximo 30% do volume habitual, o que implicaria grandes perdas financeiras e operacionais para os produtores.

Exportações de manga em queda e risco para todo o setor

Dados da Valexport mostram que, em 2024, o Brasil exportou 258.305 toneladas de manga, gerando receita de US$ 350 milhões. Apesar do volume alto, o setor já vinha enfrentando desafios com instabilidades no mercado externo e variações cambiais. Em comparação, o país exportou 272.560 toneladas em 2022 e 266.098 em 2020.

O pesquisador da Embrapa, João Ricardo Lima, alerta que a crise não se restringe aos produtores voltados à exportação. “Com a irrigação e muita tecnologia, a fruticultura — que demanda muito emprego — se desenvolveu e ajudou no crescimento da região. Hoje as uvas ocupam cerca de 16 mil hectares, e manga, quase 60 mil”, explicou.

Segundo ele, a impossibilidade de exportação causaria um efeito cascata: “As exportações são importantes pois tiram um excedente de volume que, se ficam no mercado interno, derrubam os preços. Além do que, as frutas exportadas têm um padrão mais alto e, assim, os preços delas são mais altos. E é por isso que se tem o problema agora”.

Sobre o polo do Vale do São Francisco

O Vale do São Francisco é uma das áreas mais produtivas do semiárido brasileiro, com mais de 360 mil hectares irrigáveis, sendo 130 mil atualmente em uso. A fruticultura ocupa o centro da economia regional, com destaque para manga, uva, banana, coco, goiaba, melão, limão e outras frutas tropicais.

Com produção anual superior a 1 milhão de toneladas de frutas, a região é considerada uma vitrine de tecnologia agrícola no sertão. Agora, porém, o polo enfrenta seu maior desafio logístico e comercial em décadas.

Pescados – Embora entre em vigor apenas no dia 1º de agosto, a aplicação da tarifa de 50% nos produtos brasileiros importados aos Estados Unidos, já gera impactos em setores da economia.

Bahia, Ceará e Pernambuco concentram a maior parte dos contêineres de pescados retidos, após importadores norte-americanos suspenderem os embarques diante da incerteza comercial.

Com a medida, as exportações brasileiras de pescados para os Estados Unidos estão temporariamente paralisadas. O transporte marítimo leva, em média, três semanas até o país, o que significa que os produtos enviados agora chegariam ao destino já sob a nova taxação.

Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca), ao menos 1.500 toneladas de peixes e frutos do mar deixaram de ser embarcadas desde o início do impasse.

Em nota publicada após o presidente americano Donald Trump anunciar a elevação tarifária, a Abipesca afirmou que a medida terá um impacto significativo, afetando diretamente as atividades industriais de produtos aquícolas e ocasionando perdas significativas no setor de pescados do Brasil.

Atualmente o mercado norte-americano representa 70% das exportações brasileiras de pescados e mais de US$ 240 milhões de dólares, envolvendo milhares de empregos diretos e indiretos, inclusive afetando pescadores artesanais e a aquicultura familiar.

Sobre o tema, a Abipesca destaca a importância de o governo brasileiro priorizar a abertura do Mercado Europeu como alternativa às exportações de pescados. “A morosidade dessa tratativa, em momentos como este, demonstra a importância de reduzir a dependência de mercados específicos para o pescado brasileiro”, diz a entidade.

Indústria baiana estima perda de 10 mil empregos após tarifaço de Trump

Uma estimativa da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) aponta que cerca de 10 mil empregos do setor industrial baiano deverão ser afetados com a tarifa de 50% sobre produtos brasileiros anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A medida foi determinada neste mês e passará a valer em 1º de agosto. De acordo com Carlos Henrique Passos, presidente da Fieb, a taxação inviabiliza negócios e contribuirá para a perda de postos de trabalho no estado.

Na Bahia, a indústria de celulose, pneus e cacau serão as mais afetadas pelas tarifas elevadas. Na prática, os produtos baianos ficarão mais caros nas prateleiras americanas, já que os importadores deverão arcar com a taxação para comprar o que é produzido no Brasil. Para Carlos Henrique Passos, a indústria nacional deverá buscar novos mercados para realocar a produção – o que levará tempo e dinheiro.

“Para algumas indústrias, o mercado americano representa 30% da produção. Se, eventualmente, ela não conseguir dar continuidade àquele mercado no curto prazo, e não encontrar o mercado para colocar os produtos, significará uma redução da produção. Em alguns casos, isso pode inviabilizar as indústrias”, afirma o presidente da Fieb.

Uma projeção feita pela Superintendência de Estudos Econômicos da Bahia (SEI) aponta que, com a imposição tarifária norte-americana, o estado deve amargar um prejuízo de aproximadamente 470 milhões de dólares só no primeiro ano da nova medida, o que daria R$ 2,6 bilhões convertidos. As exportações para os Estados Unidos correspondem a 1% do Produto Interno Bruto (PIB) do estado.

“Na Bahia, em torno de 10 mil empregos no setor industrial serão afetados se chegarmos ao ponto que as tarifas impedem qualquer tipo de negócio. Imaginar que alguém que compra um produto por R$ 100 passará a comprar por R$ 150, e manterá aquele mercado, é muito difícil”, completa Carlos Henrique Passos. Os custos com a nova tarifa, explica o presidente, teriam que ser repassados ao mercado consumidor, o que, em muitos casos, seria inviável economicamente.

Novos mercados

Especialistas ouvidos pela reportagem explicam que a solução da indústria brasileira deverá ser a busca por novos mercados consumidores para absorver a produção nacional. Tarefa que não é tão simples, como explica Arthur Cruz, coordenador de Conjuntura Econômica da SEI. Entre as dificuldades, estão os custos de logística e barreiras não tarifárias.

“O que determina a viabilidade de redirecionar produtos para outros mercados são os custos logísticos e de competitividade de cada país. Um produto que é competitivo nos Estados Unidos pode não ser em outro país. Existem dificuldades de exportação de produtos brasileiros especialmente para a União Europeia, que possui normas específicas para a entrada de produtos importados”, avalia o coordenador da SEI.

Para Arthur Cruz, os impactos na perda de postos de trabalho deverão ser sentidos de formas diferentes, a depender da produção de cada setor. Grandes empresas deverão ter mais facilidade para gerir crise, enquanto os pequenos e médios produtores enfrentarão os maiores impactos. Um estudo da Superintendência dos Estudos Econômicos aponta que 210 mil pessoas, na Bahia, estão ligadas à produção de itens exportados para os Estados Unidos.

Atualmente, os Estados Unidos são o terceiro maior comprador dos produtos industrializados do estado, atrás apenas da China e, recentemente, do Canadá. A indústria baiana exportou para os EUA um montante de 440 milhões de dólares só no primeiro semestre deste ano, o equivalente a R$ 2,4 bilhões.

O economista Edval Landulfo, vice-presidente do Conselho Regional de Economia da Bahia (Corecon), avalia que ainda é cedo para estimar os impactos da nova tarifa sobre o nível de emprego no estado. Segundo ele, há a expectativa de que o mercado interno absorva parte da produção que antes era destinada à exportação para os Estados Unidos. Com isso, é possível que haja uma queda nos preços desses produtos no mercado nacional.

Uma produção que exporta exclusivamente para os Estados Unidos, caso não encontre outro mercado, poderá reduzir a produção e demitir. Mas esse não deve ser um efeito imediato pois ainda há o mercado nacional para absorver esse produto.

Fim da hegemonia norte-americana?

Ao anunciar a taxação de produtos brasileiros, Trump justificou a decisão citando “ordens de censuras secretas e injustas para plataformas de mídia social dos EUA” e mencionou o que chamou de “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Para especialistas, a atitude americana representa interferência na política interna brasileira. Na terça-feira (14), o presidente Lula (PT) regulamentou a Lei de Reciprocidade Comercial, que autoriza o governo a suspender concessões comerciais aos países que imponham barreiras unilaterais.

Para o professor Henrique Oliveira, coordenador da Agência de Internacionalização e Exportação (AIEX) da Universidade Salvador (Unifacs), a ação do presidente norte-americano pode representar o fim de um ciclo hegemônico comercial liderado pelos EUA. “Não é comum que países imponham tarifas a todos os produtos de outro país. Normalmente, o que ocorre são taxações em cima de itens específicos. Os Estados Unidos estão reagindo à diversificação de parceiros econômicos e a perda de sua hegemonia”, avalia.

A tentativa do presidente Donald Trump de, a partir das tarifas, impor sanções aos países que buscam novos parceiros deve ter efeito contrário. Isso porque os governos deverão encontrar novos mercados para escoar a produção local. De acordo com Henrique Oliveira, a taxação abre espaço para que a indústria baiana reconheça a importância de produzir itens com maior valor agregado.

A Bahia, por exemplo, exporta cacau para que os Estados Unidos produzam chocolate em solo americano. “É uma boa oportunidade para mostrar a importância de produtos de alto valor agregado direcionados ao mercado de luxo, que não sofrem tanto com as tarifas quanto as commodities. Isso porque os itens produzidos em grande escala e que possuem um baixo valor agregado podem ser exportados por mais países”, diz.

“Todo esse tarifaço causa uma turbulência em diversos mercados. Mas ainda é cedo para cravar quais serão os impactos exatos disso”, avalia o economista Edval Landulfo. Além do Brasil, países como Malásia, Coreia do Sul e Canadá receberam avisos de tarifas impostas pelos Estados Unidos.

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