Uma casa que abriga a história do Brasil. Depois de 25 anos fechado, o Museu do Recôncavo Wanderley Pinho reabriu as portas para o público nesta semana. Localizado no distrito de Caboto, em Candeias, na Região Metropolitana de Salvador, o equipamento funcionará de quarta a domingo, das 10 às 17h, com acesso gratuito.
Ao todo, o museu conta com cerca de 260 peças, entre objetos, documentos, mobiliário, paramentos, cerâmicas, pinturas, fotografias e achados arqueológicos, espalhadas por 55 cômodos. A requalificação envolveu os processos de restauração do espaço físico e das obras expostas, um trabalho iniciado há alguns anos.
O acervo foi reorganizado em cinco núcleos: Histórico, Povos Originários, Povos Escravizados, Doméstico e Memória, um recorte museográfico que busca dar voz aos que sempre viveram à margem da história oficial. As salas exibem fotos, documentos, mobiliário e peças que remetem ao período colonial e ao longo dos séculos. Com duração média de duas horas, o passeio inclui também a visita à Capela de Nossa Senhora da Conceição da Freguesia, preservada e integrada à memória do antigo engenho.
No primeiro andar, o museu abriga a exposição “Encruzilhadas”, com obras de arte negra brasileira e africana, vindas dos acervos do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA) e do Solar Ferrão, fortalecendo o diálogo entre passado colonial e os traços vivos da cultura negra e afrodescendente. “Nós temos uma casa que já é a história. Essa é uma experiência, onde não se faz apenas uma visita e sai. O museu não é só o casarão ou as peças que estão expostas. Ele ainda está sendo modelado e acho que levaremos, ao menos, dois anos montando o museu para que tenha um corpo e sua marca”, afirmou a coordenadora Daniela Steele.
O artista indígena Thiago Tupinambá foi responsável pela pintura das salas que compõem o Núcleo dos Povos Originários, decoradas com grafismos que remetem à tradição Tupinambá. A intervenção representa não só um resgate simbólico, mas a afirmação de narrativas indígenas muitas vezes invisibilizadas.
“Temos uma sala com o povo Tupinambá dentro do museu, mas precisamos ter museus indígenas e ter outros espaços para levarmos a nossa história e a nossa arte. É um grande passo que o Museu do Recôncavo reconheça que os povos indígenas também carregam a sua arte”, pontuou o artista. Ele fez questão de destacar que esse foi o primeiro trabalho para um museu. “Isso abre portas não só para mim, como para outras pessoas”, destacou Thiago Tupinambá.
Para a direção do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), que supervisionou a restauração, a reabertura do museu representa a valorização de histórias antes marginalizadas. O edifício, datado do século XVI, foi originalmente o Engenho Freguesia, considerado um dos primeiros engenhos de açúcar do Brasil colonial e um símbolo da economia açucareira, da escravidão e das transformações urbanas e culturais da Bahia.
O investimento público na restauração foi de cerca de R$ 42 milhões, por meio do programa estadual ligado ao turismo e com apoio de financiamento internacional. A intervenção restaurou o casarão, a antiga fábrica do engenho, a capela, a área urbanística ao redor, e incluiu a construção de um novo atracadouro com acesso pela Baía de Todos-os-Santos.
Para além de um espaço de memória, o museu assume também papel central no turismo cultural, ecológico e comunitário da região. No entorno do Engenho há áreas de Mata Atlântica preservada, um dos trechos mais valorizados ambientalmente do Recôncavo, o que amplia a experiência do visitante ao aliar história, natureza e identidade.
Após uma ampla requalificação física e museológica que reposiciona o espaço como um centro de reflexão crítica sobre o passado colonial e escravocrata do país. A nova expografia, concebida pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), unidade vinculada à Secretaria de Cultura do Estado (Secult-BA), valoriza as narrativas africanas e indígenas e incorpora a participação das comunidades do entorno na construção das histórias apresentadas.

Com base em um extenso trabalho de pesquisa conduzido pelo IPAC, o museu passa a contar com cinco núcleos expositivos que estruturam a nova narrativa, além da Capela de Nossa Senhora da Conceição da Freguesia e do térreo dedicado a exposições temporárias de longa duração. O conceito renovado procura dar centralidade a vozes historicamente invisibilizadas, destacando o papel de afrodescendentes e povos originários e transformando o antigo engenho em um espaço de diálogo sobre a formação social brasileira.
No térreo, a exposição temporária de longa duração Encruzilhadas reúne obras de arte negra brasileira e africana dos acervos do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA) e do Solar Ferrão. São trabalhos de 40 artistas, entre eles Mestre Didi, Agenor Gondim, Pierre Verger, Rubem Valentim, Juarez Paraíso, Emanoel Araújo, Bel Borba, Arlete Soares e Alberto Pita. Também integram a mostra máscaras da Coleção Claudio Masella, reunidas ao longo de 35 anos de vivência do industrial italiano na Nigéria e no Senegal.