O Dia da Empregada Doméstica, celebrado nesta segunda-feira (27), evidencia não apenas a importância da categoria para a economia, mas também os desafios históricos enfrentados pelas trabalhadoras domésticas na Bahia. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam um cenário marcado por baixa remuneração, alta informalidade e desigualdades estruturais de gênero e raça.
Segundo informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), em 2025, cerca de 402 mil pessoas trabalhavam no serviço doméstico remunerado na Bahia, o equivalente a 6,2% da população ocupada. Esse percentual é superior à média nacional, que é de 5,5%, colocando o Estado entre os que têm maior participação da categoria no mercado de trabalho.
Perfil das trabalhadoras domésticas na Bahia
O trabalho doméstico no estado é exercido majoritariamente por mulheres. Dados do Censo Demográfico mostram que, em 2022, 96,1% dos trabalhadores domésticos eram do sexo feminino. Além disso, há um forte recorte racial: 85,6% dessas mulheres são pretas ou pardas, o que representa 82,2% de toda a categoria. Esse perfil reforça o caráter estrutural das desigualdades no Brasil, onde o trabalho doméstico historicamente está associado a mulheres negras, refletindo heranças sociais profundas.
Outro dado relevante é o nível de escolaridade. Na Bahia, 67,9% das trabalhadoras domésticas não haviam concluído o ensino médio em 2022.
Dentro desse grupo, quase metade (45,8%) não possuía instrução ou não completou o ensino fundamental. Apenas 1,2% tinham ensino superior completo, evidenciando a dificuldade de acesso à educação formal.
Baixa remuneração e desigualdade de renda
Os dados do IBGE mostram que as trabalhadoras domésticas estão entre as que recebem os menores rendimentos no estado. Em 2025, o salário médio mensal da categoria foi de R$ 910, valor 58,7% inferior à média geral dos trabalhadores na Bahia, que é de R$ 2.204.
A disparidade se torna ainda mais evidente quando comparada a outras categorias. O rendimento médio das domésticas equivale a cerca de um quinto do recebido por empregadores, que têm média de R$ 4.938.
No cenário nacional, a situação também é desfavorável. O rendimento médio das trabalhadoras domésticas na Bahia é o terceiro menor do país, ficando à frente apenas de estados como Piauí e Maranhão. A média nacional é de R$ 1.367.
Informalidade ainda é predominante
A informalidade é outro desafio central. Em 2025, 83,1% das trabalhadoras domésticas na Bahia não tinham carteira assinada, o que corresponde a cerca de 334 mil pessoas. Essa condição impacta diretamente os rendimentos. Trabalhadoras sem carteira assinada recebem, em média, R$ 768, valor significativamente inferior aos R$ 1.602 pagos às profissionais formalizadas.
A ausência de vínculo formal também limita o acesso a direitos trabalhistas, como férias remuneradas, 13º salário e previdência social, ampliando a vulnerabilidade da categoria.
Tendência de queda no número de trabalhadores
Apesar da relevância econômica, o número de pessoas ocupadas no trabalho doméstico apresenta tendência de redução na Bahia. Em comparação com 2024, houve uma queda de 4,7%, o equivalente a cerca de 20 mil trabalhadores a menos.
No longo prazo, a retração também é observada. Em 2012, eram 433 mil trabalhadores domésticos no estado. Em 2025, esse número caiu para 402 mil, uma redução de 7,2%. Essa redução pode estar relacionada a mudanças no mercado de trabalho, maior acesso à educação e transformações nas dinâmicas familiares e econômicas.
Distribuição regional e impacto social
Os dados do IBGE também mostram diferenças regionais dentro da Bahia. Municípios como Nordestina, Iramaia e Miguel Calmon apresentam as maiores proporções de trabalhadores domésticos em relação à população ocupada, com índices acima de 10%.
Já Salvador possui uma participação menor proporcionalmente, com 5,7% dos trabalhadores atuando no setor, o que representa cerca de 60 mil pessoas. Mesmo assim, o impacto social e econômico da categoria é significativo. O trabalho doméstico sustenta a chamada economia do cuidado, permitindo que outras atividades produtivas sejam realizadas, especialmente nas áreas urbanas.
Desigualdade histórica e importância da valorização
No Brasil, o trabalho doméstico envolve cerca de 5,9 milhões de pessoas, sendo uma das maiores ocupações do país. Ao mesmo tempo, é uma das mais precarizadas, com raízes históricas que remontam ao período escravocrata.
A criação de direitos trabalhistas específicos, como a chamada PEC das Domésticas, representou avanços importantes na formalização e garantia de direitos. No entanto, os dados mostram que ainda há um longo caminho para a valorização profissional e redução das desigualdades.
Neste Dia da Empregada Doméstica, os números reforçam a necessidade de políticas públicas e iniciativas que promovam formalização, melhores salários e acesso à educação, garantindo condições mais justas para uma categoria essencial para o funcionamento da sociedade.