O músico e compositor Jards Macalé, autor de Vapor Barato e referência da música brasileira, morreu nesta segunda feira (17), aos 82 anos, no Rio de Janeiro. O artista estava internado na Barra da Tijuca para tratar problemas pulmonares e não resistiu a uma parada cardíaca, confirmada por amigos e por comunicado divulgado nas redes sociais.
A família informou que Macalé estava hospitalizado desde o fim de semana, em tratamento, e chegou a interagir após uma cirurgia. O comunicado oficial destacou a importância do artista para a música brasileira e reforçou que informações sobre o funeral serão divulgadas posteriormente.
“Jards Macalé nos deixou hoje. Chegou a acordar de uma cirurgia cantando ‘Meu Nome é Gal’, com toda a energia e bom humor que sempre teve. Cante, cante, cante. É assim que sempre lembraremos do nosso mestre, professor e farol de liberdade. Agradecemos, desde já, o carinho, o amor e a admiração de todos. Em breve informaremos detalhes sobre o funeral.
“Nessa soma de todas as coisas, o que sobra é a arte. Eu não quero mais ser moderno, quero ser eterno”. — Jards Macalé’, diz a nota.
Relembre o estado de saúde e internação de Jards Macalé
Macalé estava internado em um hospital localizado na Zona Sudoeste do Rio, onde tratava problemas pulmonares identificados pelos médicos. Amigos próximos relataram que ele apresentou piora nesta segunda feira e, mesmo após intervenção cirúrgica, teve uma parada cardíaca. O artista já enfrentava questões respiratórias nas últimas semanas, o que motivou a internação.
A notícia também foi confirmada por veículos de imprensa e por pessoas próximas ao músico, que lembraram que ele estava ativo profissionalmente e trabalhava em projetos recentes. A família reforçou que Macalé estava lúcido e chegou a cantar logo após acordar da cirurgia, o que, para eles, simboliza sua relação inseparável com a música.
Trajetória e legado na música brasileira de Jards Macalé
Nascido no Rio de Janeiro em 1943, Jards Anet da Silva iniciou sua carreira nos anos 1960. Sua primeira composição gravada por outro artista foi lançada por Elizeth Cardoso em 1964. Desde cedo, Macalé construiu uma identidade artística marcada pela experimentação musical e pela liberdade criativa que guiou toda a sua produção.
No fim dos anos 1960, apresentou Gotham City no IV Festival Internacional da Canção, performance que marcou sua projeção nacional. Em 1972, lançou o álbum Jards Macalé, obra que solidificou sua estética híbrida ao misturar rock, samba, jazz, blues, baião e canção. Ali surgiram algumas das bases que moldaram sua influência sobre diferentes gerações.
Entre seus principais sucessos estão Hotel das Estrelas, Anjo Exterminado, Mal Secreto e Vapor Barato, uma das músicas mais regravadas da MPB, eternizada também nas vozes de Gal Costa, Maria Bethânia e posteriormente reinterpretada por O Rappa. Nas redes sociais, Bethânia lamentou a morte do amigo e escreveu que ele fará falta.
“Meu amor, meu amigo… Fará muita falta neste mundo.
”, postou Bethânia.
Parcerias fundamentais
Jards Macalé formou parcerias decisivas com poetas e compositores que marcaram a cultura brasileira. Entre eles, Waly Salomão, coautor de Vapor Barato, além de Vinicius de Moraes, Torquato Neto e José Carlos Capinan. Sua obra dialogou diretamente com os movimentos artísticos que buscavam ampliar a liberdade estética e romper estruturas tradicionais.
Sua relação com artistas baianos também marcou sua trajetória. Durante o período de exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil em Londres, Macalé esteve ao lado dos músicos e assinou a direção musical de Transa, um dos álbuns mais importantes da carreira de Caetano. O baiano lamentou a morte do amigo e relembrou a parceria desde os primeiros anos de convivência no Rio.
Atuação em cinema, teatro e artes visuais
Macalé também deixou contribuições relevantes fora da música. Atuou em filmes como O Amuleto de Ogum e Tenda dos Milagres, dirigidos por Nelson Pereira dos Santos. Participou de trilhas sonoras de produções marcantes como Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha.
Ao longo de seis décadas de carreira, transitou entre cinema, televisão, teatro e artes plásticas, reforçando sua presença múltipla na cultura nacional. Mesmo com o avançar da idade, manteve atuação contínua e lançou o álbum Besta Fera, em 2019, trabalho considerado um dos destaques de sua discografia recente.