Lavagem do Bonfim: como nasceu a festa que une fé, cultura e política

Antes mesmo do sol nascer por completo sobre a cidade, Salvador já começa a se transformar. O branco toma conta das ruas e dos corpos. Mais do que uma cor, é um sinal coletivo de que a cidade entrou em estado ritual. Quando a Lavagem do Bonfim acontece, fé, cultura, identidade e política caminham juntas por cerca de 8 quilômetros, da Igreja da Conceição da Praia até a Colina Sagrada.

Realizada sempre na quinta-feira que antecede o segundo domingo após o Dia de Reis, a Lavagem mobiliza milhares de pessoas, entre baianos e turistas. Em 2026, a celebração ocorre nesta quinta-feira, dia 15 de janeiro, com início do cortejo às 8h, reafirmando seu papel como uma das maiores manifestações religiosas e culturais da Bahia, reconhecida como Patrimônio Imaterial do Brasil.

Senhor do Bonfim e Oxalá: sincretismo que sustenta a festa

Nas religiões de matriz africana, o Senhor do Bonfim é associado a Oxalá, orixá ligado à criação, à paz e à sabedoria. Esse vínculo simbólico ajudou a consolidar a Lavagem como um dos maiores exemplos de sincretismo religioso do país, onde diferentes crenças compartilham o mesmo espaço ritual.

Segundo o historiador Murilo Mello, a presença africana é central para a permanência da festa como manifestação viva da cultura baiana.

A presença dos afrodescendentes, da cultura africana é fundamental para que a festa do Bonfim permaneça viva e grande, com a participação efetiva da população”, afirmou.

Origens da Lavagem do Bonfim e os primeiros festejos populares

A origem da Lavagem do Bonfim não é única e apresenta diferentes versões históricas. Segundo o historiador Murilo Mello, uma delas remete à promessa feita por um soldado da Guerra do Paraguai, que teria se comprometido a caminhar da Cidade Baixa até o Bonfim caso retornasse vivo. Outra explicação é ainda mais antiga e aponta para a presença da Festa de São Gonçalo, realizada nas imediações da igreja desde o início do século XIX.

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Historiador Murilo Mello

Esse festejo reunia mulheres que buscavam casamento e fertilidade, jovens músicos e grande participação popular. Relatos de 1804 já registram a força dessa manifestação, que acontecia do lado de fora da igreja e atraía multidões. Esse contexto ajudou a consolidar o espaço do Bonfim como território de devoção popular antes mesmo da consolidação da lavagem como é conhecida hoje.

Lavagem como ritual e o protagonismo das baianas

A prática da lavagem ganhou forma com a atuação das baianas, mulheres negras, muitas delas escravizadas ou descendentes diretas, que levavam água de cheiroflores e areia fina para limpar e perfumar a igreja antes da missa dominical. O gesto, realizado tradicionalmente na quinta ou sexta-feira, antecedia o ponto central da liturgia católica.

Com o tempo, essas mulheres passaram a representar o símbolo mais forte da festa. Para Murilo Mello, as baianas se tornaram o verdadeiro ápice visual e simbólico da Lavagem do Bonfim, incorporando elementos religiosos, culturais e identitários que permanecem até hoje como marca da celebração.

Sincretismo religioso e diálogo entre crenças

Do ponto de vista antropológico, a Lavagem do Bonfim se destaca por reunir diferentes tradições religiosas em um mesmo sentimento coletivo. O antropólogo Vilson Caetano explica que a celebração faz parte de algo maior, a Festa do Senhor do Bonfim, e se diferencia por conseguir articular práticas do catolicismo, das religiões de matriz africana e elementos profanos carregados de sentido sagrado.

“A Lavagem do Bonfim, ao longo do tempo, ela consegue juntar vários elementos, várias tradições no mesmo sentimento religioso”, disse Vilson Caetano.

Lavagem do Bonfim: como nasceu a festa que une fé, cultura e identidade baiana
Antropólogo Vilson Caetano

Esse diálogo não foi isento de conflitos. Ao longo da história, a lavagem foi alvo de proibiçõespreconceito e tentativas de controle por parte da Igreja Católica. Ainda assim, as religiões de matriz africana encontraram formas criativas de manter suas tradições, estabelecendo uma convivência marcada por tensão, mas também por resistência e adaptação.

Transformações ao longo do tempo

No final do século XIX, a lavagem passou a ser vista pelas autoridades como um momento de desordem. As portas da igreja foram fechadas, e o ritual foi gradualmente empurrado para fora do templo, primeiro para o adro e depois para a escadaria. Esse processo, segundo Vilson Caetano, revela uma história de altos e baixos na aceitação da manifestação.

Mesmo reconhecida oficialmente como elemento da Festa do Bonfim, a lavagem segue sendo alvo de disputas simbólicas. Tentativas de transformá-la em uma procissão católica são vistas como formas de descaracterização de um momento que nasceu com forte protagonismo africano e popular.

Como toda manifestação cultural viva, a Lavagem do Bonfim passou por mudanças ao longo dos anos. O percurso do cortejo foi ampliado, o transporte deixou de ser feito por barcos, personagens foram incorporados e cores tradicionais se transformaram. Murilo Mello lembra que, antes do branco predominante hoje, o azul era a cor mais utilizada.

Como é o percurso de 8 km

A Lavagem do Bonfim começa oficialmente na Igreja da Conceição da Praia, onde é realizado um culto inter-religioso que reúne representantes de diferentes crenças, além de lideranças políticas e autoridades. A partir dali, o cortejo segue pela Cidade Baixa, passando pelo Comércio, Calçada, Largos dos Mares, Roma e Dendezeiros, até alcançar o bairro do Bonfim e a Colina Sagrada.

Ao longo do percurso, a Cidade Baixa é tomada por um verdadeiro manto branco. Além de fiéis, o trajeto reúne bloquinhos, grupos de dança, manifestações culturais e performances espontâneas, que transformam a caminhada em um grande ato coletivo de expressão popular.

Baianas, água de cheiro e as regras do cortejo

O protagonismo da Lavagem está nas baianas, responsáveis por conduzir o ritual da limpeza simbólica com água de cheiro, flores e ervas. Tradicionalmente, a festa segue uma regra histórica: por se tratar de um evento municipal, cabe ao prefeito de Salvador dar início ao cortejo, à frente das baianas que carregam os vasos.

Essa regra já gerou conflitos públicos ao longo dos anos. Houve edições em que a tentativa de representantes do governo estadual de antecipar o início da caminhada transformou o momento simbólico em uma disputa política aberta, reforçando que a Lavagem também carrega contornos de poder.

Lavagem do Bonfim como termômetro político em anos eleitorais

Embora tenha caráter religioso e cultural, a Lavagem do Bonfim sempre funcionou como um termômetro político, sobretudo em anos eleitorais. Governadores, prefeitos, parlamentares e lideranças participam do cortejo conscientes de que o evento mede popularidade, alianças e desgastes diante do olhar atento da população. Na avenida Dendezeiros, os governantes param na sede das Obras Sociais Irmã Dulce (Osid) para reverenciar o legado da primeira Santa do Brasil.

Na chegada à Basílica do Senhor do Bonfim, tem início o ritual da lavagem das escadarias. Durante muitos anos, a igreja permaneceu fechada durante a celebração, reflexo das tensões históricas em torno do sincretismo religioso. Hoje, o templo se abre, em um gesto interpretado como respeito à diversidade religiosa e à história da própria festa. Do alto, a imagem do Senhor do Bonfim saúda o povo, encerrando simbolicamente o percurso.

Promessas e devoção: joelhos na Colina Sagrada e ex-votos

A Lavagem também é marcada pelo pagamento de promessas. Muitos fiéis sobem a Colina Sagrada de joelhos ou carregam réplicas de partes do corpo, geralmente feitas de plástico ou cera, em agradecimento por graças alcançadas. São gestos silenciosos que convivem com a festa e reforçam sua dimensão espiritual.

Além dos fiéis, artistas também percorrem o trajeto. Carlinhos Brown, que em alguns anos se afastou da caminhada, retomou a tradição de acompanhar o cortejo ao lado da Timbalada. Ao longo do tempo, mudanças também foram incorporadas. Antigamente, jegues e carroças faziam parte da festa, prática proibida após lei aprovada na Câmara Municipal de Salvador, em defesa do bem-estar animal.

Um momento único da religiosidade de Salvador, diz antropólogo

Para o antropólogo Vilson Caetano, a Lavagem do Bonfim representa um raro momento de convergência simbólica na cidade. “A Lavagem do Bonfim, ao longo do tempo, ela consegue juntar vários elementos, várias tradições no mesmo sentimento religioso”, disse.

Segundo ele, a celebração ultrapassa fronteiras religiosas e se consolida como um marco da identidade coletiva de Salvador.

“Nós conseguimos transformar um dos momentos da religiosidade da cidade de Salvador num momento único”, afirmou o antropólogo.

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