Depois de três suspeitos serem mortos e cinco serem presos durante operação que tentou conter a invasão do Comando Vermelho (CV) no Recôncavo Baiano na terça-feira (11), o número de mortos na região chegou a oito, segundo informações da Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia (SSP-BA).
As Forças da Segurança Pública localizaram, na tarde desta quarta-feira, 12, mais cinco integrantes de uma facção criminosa que vinham promovendo ataques e ações violentas na região do Recôncavo Baiano. O grupo foi encontrado em uma área de mata fechada entre os municípios de São Félix, Cachoeira e Muritiba.
Segundo a Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), os suspeitos atiraram contra as equipes das Polícias Militar e Civil durante o cerco. Houve confronto, e os cinco homens acabaram feridos. Eles foram socorridos para uma unidade médica em Muritiba, mas não resistiram.
As operações começaram após um intenso tiroteio que assustou moradores de Muritiba e São Félix, na manhã de terça-feira, 11. O confronto ocorreu nas imediações da Ponte da Pedra do Cavalo, na BR-101, e envolveu um grupo fortemente armado, apontado como integrante da facção Bonde do Maluco (BDM).
Com o apoio do Batalhão de Choque (BPCh), da Companhia Independente de Policiamento Especializado (CIPE) Litoral Norte e das Companhias Independentes 20ª e 80ª, as forças de segurança mantêm o patrulhamento reforçado por tempo indeterminado.
Bloqueios e varreduras continuam sendo realizados em áreas estratégicas, tanto na zona urbana quanto em regiões de mata. A SSP-BA reforça que informações que possam auxiliar as equipes podem ser enviadas, de forma anônima, pelo Disque Denúncia 181.
Vídeo: drone flagra movimentação de membros de facção no Recôncavo Baiano
O que explica a disputa de facções no Recôncavo?
Antes facilmente associado à vida pacata, tranquila e segura, típica de quase todo interior no passado, o Recôncavo Baiano tem registrado o crescimento progressivo da violência. No mês passado, uma operação contra grupos criminosos com atuação nas cidades de São Félix e Cachoeira cumpriu nove mandados de busca e apreensão. Dois acampamentos usados pelos suspeitos foram destruídos.
No local, foram apreendidos dez aparelhos celulares, balaclavas, roupas camufladas, capas de coletes balísticos, carregadores de armas e porções de maconha prontas para a venda, além de materiais abandonados pelos suspeitos durante a fuga.
A ação ocorreu duas semanas após a notícia de que criminosos teriam proibido a circulação de moradores entre cidades vizinhas, que são separadas pelo Rio Paraguaçu e ligadas pela histórica ponte Dom Pedro II. Um aviso de toque de recolher foi compartilhado por moradores.
Para Osmundo Pinho, cientista social e professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), a escalada da violência na região se deve, sobretudo, à articulação do crime organizado e à política
adotada pelo governo para combatê-lo. “O que acontece no Recôncavo é reflexo de uma grave crise nacional, que inclui variantes locais, mas, na verdade, como cada vez é mais evidente, o crime organizado e o tráfico de drogas também se globalizam e fazem parte da realidade global e transnacional”, aponta.
“A sensação de medo e desamparo só cresce, sensações que são muito maiores nas comunidades populares. O Estado falha em garantir o cumprimento da lei e falha também em oferecer possibilidades de inclusão e esperança para uma grande massa de brasileiros cansados de sofrer. É preciso que haja, em primeiro lugar, justiça para todos, controle do tráfico e porte de armas, investimentos educacionais maciços, penas proporcionais, cumpridas em condições dignas, como prescreve a lei, além de uma reforma das instituições do Estado”, defende.
Na perspectiva de Luiz Claudio Lourenço, cientista social e pesquisador do Laboratório de Estudos Sobre Crime e Sociedade da Universidade Federal da Bahia (Ufba), o crescimento populacional e comercial também são chamariz da interiorização da violência no estado.
“Nós vimos a Região Metropolitana de Salvador sendo foco de dinâmicas de violência muito aguerridas e depois a própria Ilha de Itaparica, que era um lugar muito tranquilo na década passada e passou a ter episódios de violência comuns. E o Recôncavo Baiano cada vez mais vem reportando casos de dinâmicas de violência que resultam em mortes e incrementam fortemente essas taxas de homicídios”, constatou