A decisão do União Brasil e do Progressistas (PP) de desembarcarem do governo federal deve provocar mudanças significativas na ocupação de cargos estratégicos da administração. Apesar do anúncio oficial, levantamento identificou que as duas siglas ainda mantêm 140 filiados em postos de confiança, muitos deles em órgãos com orçamentos bilionários. A movimentação acirra a disputa por espaço no Executivo e já desperta o interesse de outras legendas, sobretudo do chamado Centrão.
Estrutura ocupada por União Brasil e PP
No primeiro escalão, a presença das siglas é representada pelo ministro Celso Sabino (Turismo), do União Brasil, e pelo deputado federal licenciado André Fufuca (PP-MA), à frente do Ministério do Esporte. Enquanto Sabino já entregou sua carta de demissão, Fufuca segue no cargo, aguardando posicionamento definitivo da cúpula partidária.
Além dos ministérios, os dois partidos ocuparam cargos em autarquias, companhias e superintendências. O Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), por exemplo, tem como diretor administrativo Narcélio Moreira Albuquerque, ligado ao União Brasil, enquanto o comando geral segue como indicação do PP desde o governo Jair Bolsonaro. O órgão administra orçamento de R$ 1,3 bilhão.
Outro espaço de relevância é a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), onde dois diretores são filiados ao União Brasil: Heitor Freire e José Lindoso de Albuquerque Filho. A Sudene integra o Ministério da Integração Nacional, chefiado por Waldez Góes, apadrinhado por Davi Alcolumbre (União-AP).
A Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) também é alvo de interesse político. Presidida por Lucas Felipe de Oliveira, indicado por Alcolumbre, a estatal tem orçamento de R$ 2,1 bilhões em 2025. Segundo levantamento, ao menos cinco filiados de União e PP ocupam cargos na companhia.
Disputa por cargos e impacto político
A saída formal dos partidos pode abrir espaço para legendas como PT, PDT e PSD, que já manifestaram interesse em ampliar presença no governo. No caso do Ministério do Turismo, por exemplo, o nome do presidente da Embratur, Marcelo Freixo (PT), surge como favorito, enquanto o PDT articula a indicação de André Figueiredo (CE).
O cientista social Yagoo Moura, da FGV, avalia que o movimento dos partidos ocorre em um cenário de fortalecimento das emendas parlamentares como principal ativo político. Em 2024, o Orçamento destinou R$ 53 bilhões a emendas, diminuindo o interesse de algumas legendas em cargos comissionados ou no comando de ministérios com baixa execução orçamentária.
Celso Sabino entrega carta de demissão e pode permanecer até evento da COP30
O ministro Celso Sabino confirmou, na última sexta-feira (26), que deixará o Ministério do Turismo após determinação do União Brasil. Em reunião no Palácio do Planalto, ele entregou pessoalmente sua carta de demissão ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar disso, Sabino afirmou que seguirá no cargo até a próxima quinta-feira (3), quando participará de um evento em Belém (PA), ligado às obras da COP30.
Segundo o próprio ministro, Lula pediu sua presença no compromisso antes da saída definitiva. Sabino declarou que gostaria de continuar no governo, mas ressaltou que respeita a decisão da sigla. Ele acrescentou que ainda vê possibilidade de diálogo entre União Brasil e o Planalto, destacando a importância de manter pontes políticas abertas.
Determinação do União Brasil e consequências para filiados
O desembarque do União Brasil foi formalizado por resolução da Comissão Executiva Nacional, assinada pelo presidente Antonio Rueda. O documento determinou que todos os filiados em cargos comissionados no governo federal deveriam solicitar exoneração em até 24 horas. O descumprimento pode levar à abertura de processo disciplinar e até à expulsão do partido.
A medida impacta diretamente ministérios como Turismo, Comunicações e Desenvolvimento Regional. No entanto, auxiliares ligados a Davi Alcolumbre não devem ser afetados, já que não possuem filiação ao União Brasil.
O PP, por sua vez, ainda não definiu prazos para saída dos seus indicados. A expectativa é que a legenda adote resolução semelhante no fim de setembro.
Futuro da base aliada de Lula
A reconfiguração ministerial acontece em meio à tentativa do presidente Lula de ampliar a governabilidade no Congresso. A saída de União Brasil e PP representa perda de quadros, mas também abre caminho para reforçar alianças com partidos que têm demonstrado maior fidelidade em votações estratégicas.