Dois baianos são mortos e 16 presos na operação do RJ. Governo monitora possível reação do CV na Bahia

Pelo menos 16 baianos suspeitos de tráfico de drogas foram alvos da megaoperação policial contra a facção criminosa Comando Vermelho, na cidade do Rio de Janeiro. Deste número, 16 suspeitos foram presos e dois tiveram a morte confirmada.

Um dos dois suspeitos baianos mortos na megaoperação realizada nesta terça-feira (28), nos complexos do Alemão e da Penha, um conjunto de 26 comunidades na Zona Norte do Rio de Janeiro, foi identificado como Júlio Souza Silva, de 26 anos.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), Júlio Silva tinha envolvimento com o grupo criminoso Comando Vermelho (CV), na região do Nordeste de Amaralina, em Salvador. Júlio nasceu em Salvador e já foi preso por tráfico de drogas. O suspeito cumpria pena em regime semiaberto e o órgão se segurança pública baiano acredita que ele tinha voltado a praticar crimes após deixar o sistema prisional. O outro baiano não teve o nome divulgado.

Entre os 16 baianos presos na megaoperação, estão o suposto chefe da facção em Feira de Santana, a segunda maior cidade da Bahia, e o suposto chefe da facção no bairro de Portão, em Salvador.

A lista completa traz 16 nomes que agora estão à disposição da Justiça.

  • William Pinheiro Moura.

Megaoperação no Rio expõe conexão do CV entre os estados: veja onde facção está na Bahia

A megaoperação deflagrada nas bases do Comando Vermelho (CV) nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, trouxe à tona de forma explícita o intercâmbio criminoso entre o Rio e a Bahia.Entre os mortos está o baiano Júlio Souza Silva, 26 anos, natural de Salvador, que era liderança da facção no Vale das Pedrinhas e usava o emblema da bandeira da Bahia em fuzil que utilizava na capital fluminense.

Além de Júlio, outros três baianos também foram alvo da operação, tendo sido presos em ação conjunta de segurança. Entre eles, estão dois foragidos de Canavieiras — Marlon Niza Júnior, com mandado pela morte de um casal em 2021, e Rauflan Santos Costa, procurado por tráfico de drogas — que foram capturados após invadir uma casa na Vila Cruzeiro.

A cooperação entre os estados evidencia um padrão já revelado: a saída de criminosos da Bahia rumo ao Rio e o abrigo de lideranças fluminense em território baiano. Chefes baianos do CV, inclusive, já foram rastreados na Rocinha, na Maré e em outras favelas cariocas, atuando de forma remota no crime.

Em Salvador, por exemplo, o traficante Rodolfo Borges Barbosa de Souza, conhecido como “Barão do Tráfico”, liderava abastecimento de armas para o CV a partir da Rocinha e exportava munições para a Bahia, antes de ser preso. A investigação identificou uma rota que vinha do Leste Europeu, via Paraguai, chegando ao Rio e depois à Bahia.

De modo inverso, o Rio também tem sido palco de refúgio para criminosos baianos. A reportagem cita o caso de Anderson Souza de Jesus (vulgo “Buel”), ligado ao CV na Bahia, que teria se escondido no Complexo da Maré comandando ataques em Salvador.

O CV passou a utilizar o território fluminense como base logística – com facilidades como a densidade de favelas, a alta população e suposta fragilidade das ações de inteligência –, para coordenar atividades voltadas à Bahia com traficantes foragidos que ali se escondem.

A prisão dos dois baianos de Canavieiras demonstra, ainda, que a rede de influência já alcança o interior do estado. O deslocamento de foragidos da Bahia para o Rio, ou vice-versa, se dá tanto para buscar proteção quanto para movimentar armas, drogas e capitais de lavagem.

Veja alguns dos locais onde o Comando Vermelho está na Bahia

Salvador

Em 2025, a atuação do Comando Vermelho (CV) em Salvador se mostrou intensa em diversos bairros da cidade, com confrontos, invasões e operações policiais registradas ao longo do ano. No bairro de Tancredo Neves, traficantes do CV chegaram a interromper o transporte coletivo, tomando um ônibus como demonstração de força.

Em Fazenda Coutos, a facção promoveu uma invasão para confronto com rivais, resultando em tiroteios e pichação de paredes, enquanto em Vila Verde, na localidade de São Cristóvão, outro confronto entre CV e facção rival deixou uma mulher ferida.

Nos bairros de Cosme de Farias e Vila Laura, a polícia realizou operações específicas devido à presença consolidada da facção, e em Castelo Branco, membros do CV invadiram o bairro, picharam residências e exibiram armas em um desafio aos rivais

Caraíva

No distrito de Caraíva, o Comando Vermelho consolidou presença através de ações de violência não só contra facções rivais, mas também com forte impacto sobre comunidades locais e indígenas.

Em julho foi revelado que, numa operação em Caraíva, cinco integrantes da facção morreram e seis foram presos, sendo que entre os mortos estava o traficante Gabriel Lima da Silva, conhecido como “Cobrinha”, que participou de sequestro e esquartejamento de jovem em Eunápolis.

Em agosto, a investigação apontou que no distrito de Nova Caraíva a auxiliar de cozinha Raiane Bispo Santana, de 30 anos, foi executada por suposta retaliação do CV por atuação de rivais em Itaporanga, o que evidencia a extensão da atuação da facção na localidade e a escalada da violência.

Eunápolis

No município de Eunápolis, no Extremo‑Sul da Bahia, o CV vem atuando de modo cada vez mais ostensivo ao longo de 2025, com casos que evidenciam desde homicídios brutais até o controle de estruturas penais.

Em maio, por exemplo, o motorista de aplicativo Weverton Antônio dos Santos, de 28 anos, foi sequestrado e esquartejado após ter ingressado numa localidade onde o CV possui forte presença. No crime, achavam que ele era informante da polícia e, por isso, os executores mandaram vídeo da vítima mutilada com a frase “Tome aí seu X9”.

Em julho, ocorreu a prisão de Wanderson Oliveira dos Santos, apontado como líder do CV em Eunápolis e responsável por tentativas de homicídio contra o diretor do presídio local e policiais militares. Ele exibia perfil midiático nas redes sociais, usando armas e ostentação para impondo poder dentro do crime organizado regional.

A estrutura criminal também se infiltra no sistema prisional da cidade: em julho de 2025, uma ex‑diretora do presídio de Eunápolis, Joneuma Silva Neres, foi denunciada por facilitar a fuga de detentos do PCE/CV, tendo recebido pagamentos de cerca de R$ 1,5 milhão pela atuação.

Recôncavo Baiano

No Recôncavo, a facção vem expandindo e consolidando presença em municípios estratégicos, com confrontos diretos, disputas de território e ameaças explícitas. Em 6 de outubro, a “Tropa do CV” divulgou comunicado declarando que pretende tomar os municípios de Cachoeira e Muritiba, ambos no Recôncavo, até então controlados pela rival Bonde do Maluco (BDM).

Nessa disputa, a Tropa do CV — formada por grupos chamados “Javali”, “Mago” e “Urso” — já teria conquistado cidades vizinhas como São Félix e agora mira avançar sobre Cachoeira e Muritiba. A presença crescente da facção provoca tensão em localidades históricas e turísticas, levando autoridades a reconhecerem que a segurança pública da região está sob pressão.

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