Na comunidade quilombola de Kaongé, no Vale do Iguape, em Cachoeira – a 117 km de Salvador – no Recôncavo Baiano, a economia sempre foi marcada pela escassez. O dinheiro entrava pouco, circulava menos ainda e saía rápido do território. Pescadores, marisqueiras e pequenos comerciantes vendiam seus produtos por preços muito abaixo do justo, para assim, ter acesso imediato ao dinheiro vivo. As famílias viviam em ciclos intermináveis de dívida.
A ausência de um banco, de crédito criava um ambiente onde a renda desaparecia antes mesmo de virar sustento. Foi nesse contexto que uma moeda social própria foi criada. Trata-se do ‘Sururu’, nome batizado em consonância a uma atividade predominante na região. A ideia nasceu como uma estratégia para fortalecer o comércio interno e como um mecanismo eficaz de educação financeira na prática.
A moeda social Sururu
Segundo ela, a ideia da moeda social surgiu das observações práticas de trocas ancestrais em trabalhos coletivos, visto que, antigamente, uma família ajudava na roça da outra. Por exemplo: em um dia todos se uniam para trabalhar em uma plantação, e depois, retribuíam. Ao circular apenas dentro da comunidade, o Sururu estimulou os moradores a repensar como gastavam, a planejar compras e a lidar melhor com o que tinham. E um banco comunitário tornou-se responsável por administrar a conversão parcial entre as duas moedas.
Banco comunitário
A ideia se concretizou quando o grupo conheceu o Banco Palmas, em Fortaleza, o primeiro banco comunitário do país, inaugurado em 1998. A partir disso, com o apoio da Universidade Federal da Bahia (Ufba), da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) e dos pesquisadores, decidiram implementar uma unidade própria. Aproveitaram um edital do Governo do Estado e, ao serem selecionados, passaram a integrar a Rede Baiana de Bancos Comunitários.
Para obter a moeda social, precisávamos ter uma sede para o banco. Quando conseguimos o espaço físico, pensamos no nome da moeda e do banco. Assim nasce o Sururu, que é predominante na região e o Banco Solidário Quilombola do Iguape (BSQI), o segundo banco comunitário em território quilombola”, explicou Jorlane.
Os integrantes realizaram diversas reuniões comunitárias com associados e comerciantes para assegurar que todo o processo fosse conduzido com o aval da população. A iniciativa foi concedida pelo Conselho Quilombola da Baía do Iguape, uma organização sem fins lucrativos composta por lideranças de 18 comunidades, com representantes eleitos por suas próprias bases. Na prática, os clientes entram no banco comunitário e solicitam o empréstimo, que precisa ser de acordo com a necessidade, para depois, ser justificado na prestação de contas.
A comerciante Elzanir Conceição atua no segmento de temperos, como de pimenta batida e molhos prontos, e realiza as vendas diretamente em sua própria casa, onde os clientes compram utilizando Sururu. Para ela, o uso da moeda tem sido bastante eficaz para os negócios da região,
No início, foi um pouco difícil, mas agora, a moeda está 99,99% aceita por parte da comunidade no comércio local. Ainda, as condições que dá para a gente investir são muito boas, e beneficia, sobretudo, os pequenos empreendedores”, afirmou Elzanir.
O principal investimento é feito nas mercadorias. “Por exemplo, eu trabalho com tempero, aí vou no banco, solicito o auxílio, que é o empréstimo da moeda Sururu, e invisto comprando as coisas”, explicou a comerciante. “Depois do empréstimo, eu tenho um tempo para fazer a devolução desse dinheiro, que pode ser dividido em até três vezes. Então dá tempo de trabalhar, tirar o lucro e devolver”, continuou.
No entanto, nem tudo foi flores. Jorlane ressalta que, no início, houve muita resistência por parte dos comerciantes. “Uma das maiores dificuldades foi aderirem à moeda social, porque não adiantava abrir um banco monetário, ter toda uma estrutura, ter toda uma política inserida dentro do cotidiano e não ser aderida. Diziam que isso não ia funcionar e perguntavam: ‘O que é essa moeda social?’. Foi muito difícil passar toda essa formação política para os comerciantes que não saem do seu berço, que é o próprio bar ou mercearia, mas a gente conseguiu e isso foi uma quebra de protocolo, uma quebra de incerteza”.
Economia para as comunidades
“As moedas sociais têm três fatores importantes. O primeiro é o senso de comunidade e de identidade local regional, o que cria identificação, reconhecimento e senso de pertencimento aos moradores; o segundo é a educação financeira, pois, com uma unidade monetária circunscrita à comunidade, a noção de valor e de poder de compra/troca é melhor percebido, o que ajuda ao exercício do controle da renda frente aos gastos do dia-a-dia”, apontou ele.
E o terceiro é o impacto econômico na comunidade gerado pela concentração da compra de bens e serviços junto aos empreendimentos da própria comunidade, onde a moeda é aceita. Uma moeda social pode representar um vetor de desenvolvimento econômico, social e cultural”, continuou.
Inclusão financeira
O economista ressalta que as moedas sociais, assim como as moedas digitais que surgiram na última década, são novas alternativas frente ao sistema financeiro tradicional. “De maneira geral, complementam o sistema já que, em algum momento das transações realizadas, com moedas sociais ou criptomoedas, precisam ser convertidas em moeda nacional corrente, ou seja, em real”, disse.
Entretanto, segundo ele, diferente das criptomoedas, as moedas sociais não incomodam o sistema financeiro e os grandes bancos, pois, “são transacionadas em pequenos volumes, restritas às comunidades e referenciadas na moeda nacional”. Ainda, ressalta que são “usadas apenas para o consumo de bens e serviços, não sendo possível a realização de compras de bens de grande valor, financiamento ou capitalização financeira (aplicações com rendimentos)”, continuou.
“Nós não somos um banco convencional, somos um banco comunitário. Abrimos as portas para quem o sistema financeiro tradicional não acolhe. É esse público que buscamos atender aqui”, concluiu ela.